Vida – Crítica

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Sem Vida

Vida – Divulgação

Direção: Daniel Espinosa

Elenco: Jake Gyllenhaal, Ryan Reynolds, Rebecca Ferguson

Roteiro: Rhett Reese e Paul Wernick

Imagine que você está em casa em algum sábado à tarde, sem nada para fazer, e decide assistir a algum filme. Você escolhe Alien – O Oitavo Passageiro, um clássico que, por algum motivo ou por outro, você nunca tinha parado para ver antes. O filme te impressiona bastante: o desespero pela sobrevivência dos tripulantes no meio do completo e frio isolamento do espaço deixa-o de cabelos em pé, e um frio percorre sua espinha sempre que você se lembra da figura aterrorizante do Xenomorfo. Agora imagine que, após ver o filme, e com a história ainda fresca na cabeça, você entra na internet e vê uma nota da NASA sobre a possibilidade de vida extraterrestre; e isso, se funde de tal forma com as suas impressões sobre o filme que acabou de ver que o germe de uma ideia original começa a se formar no seu cérebro. Você começa a pensar: “E se eu pegasse exatamente a história de Alien – O Oitavo Passageiro e, de alguma maneira, a fizesse ficar melhor, mais realista e atual?” Pronto, você agora consegue entender mais ou menos como deve ter sido o processo criativo por trás de Vida.

Talvez eu esteja sendo um pouco injusto com o filme: afinal, Vida tenta ser um pouco mais do que uma imitação barata de Alien. Na verdade, ele até tem um começo promissor: uma equipe de astronautas da Estação Espacial Internacional, após recolher amostras do solo de Marte, descobre a presença de células de um microrganismo ancestral e dormente. Após reanimarem a célula e cuidarem dela até que ela se multiplique e desenvolva, os cientistas começam a perceber que acordar e fortalecer essa nova e desconhecida criatura talvez não tenha sido a melhor ideia de todas. Após um acidente que acaba liberando o alienígena dentro da estação, David Jordan (Jake Gyllenhaal), Miranda North (Rebecca Ferguson), Rory Adams (Ryan Reynolds) e o resto da equipe precisarão fazer de tudo para conter a criatura e, ainda, achar alguma forma de se manterem vivos.

A primeira meia hora de Vida promete uma direção interessante para o filme: vemos os personagens sendo apresentados de maneira coerente, com bastante espaço para crescerem e o que parece ser um rumo claro de desenvolvimento. Isso tudo é esquecido no resto do filme. Após esse começo promissor, Vida degringola para todos os estereótipos possíveis de um filme do gênero, esquecendo-se completamente da relação das personagens que ele tentou construir no início e fazendo toda a ação acontecer mais por causa da burrice dos protagonistas do que por recursos genuinamente bem-pensados. Na verdade, noventa por cento da trama de Vida poderia ter sido facilmente resolvida se as personagens houvessem tido o bom-senso de falarem umas com as outras. Ou talvez essa seja a verdadeira mensagem de Vida: que a humanidade está verdadeiramente perdida quando ela para de tentar se comunicar entre si—uma mensagem tão babaca e exposta de maneira tão sutil que eu espero que ela tenha sido não-intencional, para não me fazer ter raiva do diretor e dos roteiristas.

Mas o mais provável é que isso nem tenha passado de fato pela cabeça do diretor Daniel Espinosa e dos roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick. É surpreendente ver como Reese e Wernick, conhecidos principalmente pela maneira como conseguem subverter conceitos típicos de gênero cinematográfico—como, por exemplo, do gênero de zumbis em Zumbilândia e do gênero de super-heróis em Deadpool—deixam Vida se levar para uma mesmice enfadonha, sem apresentar absolutamente nada de novo. E o pior é que essa sensação de mesmice se reflete no elenco: Reynolds acaba caindo na mesma armadilha de excessos dramáticos que ele sempre cai quando tenta interpretar papéis mais sérios, e Ferguson, de uma forma comicamente paradoxal, marca mais pela sua falta de presença em cena do que por qualquer outra coisa. Até o monstro marciano é imperdoavelmente esquecível: a criatura, feita de puro músculo, puro cérebro, e pura capacidade ótica, não possui, nem de longe, toda a força icônica de um Xenomorfo, ou de outros monstros famosos. O que poderia ser incrivelmente assustador no papel mostra-se decepcionante na tela. Além disso, diversos pontos do filme e da mitologia do marciano são convenientemente passados para trás, o que seria ótimo se a impressão geral fosse mais do tipo isso não é importante no momento e menos do tipo eu não pensei direito nisso.

Vida parece o tipo de filme que já nasceu morto. E isso por causa da aparente falta de interesse de quase todo mundo envolvido: ninguém parece realmente se importar com o produto final e o resultado é a total falta da urgência que esse tipo de filme necessita e uma sequência de cenas puramente protocolar. Gyllenhaal é um ator incrível, e ele parece ser o único que tenta dar o máximo de si; mas nem a maior boa-vontade do mundo consegue superar um mar de desinteresse. E quando tal falta de interesse já parte dos realizadores, como exigir isso do público? Melhor ficar em casa e assistir a Alien.

Sobre o Autor

Daniel Lomba
Um entusiasta de cultura em todas as suas formas.

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