Três Anúncios Para Um Crime – Crítica

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Onde Os Fracos Não Têm Vez

Direção: Martin McDonagh

Elenco: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, Lucas Hedges

Roteiro: Martin McDonagh

Três Anúncios Para Um Crime é o tipo de filme que os irmãos Coen provavelmente fariam muito bem. Não só porque ele é estrelado por Frances McDormand, casada há anos com Joel Coen e figura fácil em vários filmes dos irmãos, mas também porque a temática do filme é essencialmente coeniana: uma pequena cidade americana e os efeitos da violência dentro dela; como o ódio e a injustiça crescem dentro das pessoas e acabam consumindo elas; a busca pela vingança a qualquer custo, mesmo que ela não resolva nada, mesmo que ela nem seja contra o verdadeira culpado; a busca da vingança como forma de expiar os próprios remorsos e culpa. Fico entusiasmado só de imaginar o que poderia ter sido Três Anúncios Para Um Crime sob o comando dos dois. Ao invés disso, temos que aguentar a versão de Martin McDonagh.

Eu não conhecia o trabalho de McDonagh antes de Três Anúncios Para Um Crime; não vi seus outros filmes ou li qualquer uma de suas várias peças. Aparentemente, ele é uma figura conceituada e respeitada no meio, mas o seu texto nesse filme não demonstra esse pretenso talento. A premissa de Três Anúncios Para Um Crime é, até, promissora: seis meses após o estupro e assassinato de sua filha, Mildred Hayes (McDormand), cansada de não ver nenhum avanço no caso, resolve alugar três imensos outdoors na estrada rumo à cidade de Ebbing, no estado do Missouri, e colocar neles uma mensagem dirigida diretamente ao chefe da polícia local, William Willoughby (Woody Harrelson). Os outdoors causam uma enorme comoção na cidade, em primeiro lugar porque Willoughby é uma figura querida pelos moradores, e em segundo lugar porque ele está morrendo de câncer pancreático. De todas as pessoas, é Jason Dixon (Sam Rockwell), parceiro e amigo de Willoughby, um policial extremamente agressivo e racista, quem mais se ofende com a mensagem de Mildred; e em diversos momentos, ele faz de tudo para reprimir tanto ela quanto o agente publicitário que alugou o espaço dos outdoors para ela.

Dá para perceber, apenas por essa breve sinopse, que Três Anúncios Para Um Crime é um filme que fala sobre a raiva e o desejo descontrolado por vingança e redenção. A direção de McDonagh é agressiva desde o começo, contrastando a placidez dos tons de azul do cenário (do macacão usado por Mildred, da luz sobre a cidade ao amanhecer), com a violência do vermelho (do sangue que Willoughby joga na parede, ou cospe na cara de Mildred; das mangas na camisa dela; até o referido agente publicitário se chama Red). Não é à toa que os outdoors crescem no cenário com um vermelho intenso: sua sugestão é de uma briga até a morte entre Mildred e a polícia; ou entre Mildred e qualquer um que entrar no seu caminho rumo ao assassino de sua filha.

Mas para cada boa escolha de direção que McDonagh faz, ele parece fazer duas escolhas ruins. O texto do diretor não chega a decolar em nenhum instante; ele alterna momentos de alta tensão com piadas gratuitas inseridas fora de contexto, que apenas servem para quebrar completamente a cena. A comédia, como muito bem nos mostram os Coen, pode servir para realçar uma sequência de eventos demonstrando o absurdo da ação dos personagens. Mas McDonagh usa isso indiscriminadamente; as situações cômicas que ele insere no filme não servem para desenvolver a trama, mas apenas para estagnar a crescente dramática das cenas. Usadas despropositadamente, essas situações parecem demonstrar que McDonagh está mais interessado em criar momentos separados do que em construir uma narrativa unificada.

E é esse, justamente, o meu grande problema com o filme: o texto e a direção de McDonagh não parecem estar preocupados com o desenvolvimento das personagens, ou com entendê-las emocionalmente. Os atores precisam tirar leite de pedra para conseguir puxar alguma carga emocional do roteiro. McDormand talvez merecesse o Oscar só por isso: ela consegue fazer milagres com uma personagem com pouca ajuda do diretor. (Para não correr o risco de ser injusto com McDonagh, devo admitir que a atriz possui ao menos uma cena que é bem escrita e ajuda a dar nuances para a personagem) Já Rockwell é um caso estranho: seu personagem não só não possui empatia, como também o ator monta uma interpretação meio esquizofrênica. O suposto desenvolvimento do personagem é, na verdade, dois momentos diferentes justapostos, quase sem nenhuma conexão entre si. Acho incrível que ele tenha sido indicado pelo papel; quanto mais que ele se apresente como o favorito para levar o prêmio.

Com esses problemas de execução, a mensagem de Três Anúncios Para Um Crime fica perdida no meio. Não que seja uma mensagem particularmente interessante para início de conversa: acho extremamente suspeito a defesa de McDonagh de violência gratuita e de vigilantismo/justiça própria a qualquer custo. De qualquer maneira, o tema é interessante e poderia ter sido fascinante se fosse bem explorado. Por sorte, McDonagh não comete o erro de romantizar demais os seus heróis. Mas acho que isso vem mais da inabilidade do diretor de conseguir criar qualquer tipo de empatia pelos personagens do que de uma escolha consciente e cuidadosa. No final das contas, só me resta sonhar com o que esse filme poderia ter sido.

Sobre o Autor

Daniel Lomba
Um entusiasta de cultura em todas as suas formas.

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