Straight Outta Compton – Crítica

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Quem Vai Sobreviver na América?

 

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Direção: F. Gary Gray

Elenco: O’Shea Jackson Jr., Corey Hawkins, Jason Mitchell, Paul Giamatti

Roteiro: Jonathan Herman e Andrea Berlof


Nota: 2,5 de 5 estrelas


Começando do fundo e chegando ao topo; todo mundo gosta de uma boa história de superação. Acompanhamos a jornada do herói, partindo de suas origens humildes, quando ele era um jovem claramente especial em algum sentido, mas incompreendido pelo mundo, e não possuía nada além de um sonho, passando pela sua ascensão pessoal, culminando no desejado sucesso final; sempre movido por uma determinação inabalável, uma sede insaciável de superar os obstáculos da vida. Histórias assim nos fazem bem; mostram que tudo é possível quando a vontade é grande o suficiente e o sonho vale a pena—e mesmo que isso não seja tão verdadeiro assim, não há mal algum em um pouco de liberdade criativa por parte dos filmes de vez em quando.

Straight Outta Compton: A História da N.W.A. é uma clássica história de superação: o filme conta sobre a formação do grupo N.W.A. e sobre como eles revolucionaram a indústria musical no final da década de oitenta e início da década de noventa. Composto por Eazy-E (Jason Mitchell), Ice Cube (O’Shea Jackson Jr.), Dr. Dre (Corey Hawkins), MC Ren (Aldis Hodge) e DJ Yella (Neil Brown Jr.), a N.W.A. era um grupo de hip-hop e rap que teve suas origens na cidade de Compton, no estado americano da Califórnia. Compton é uma das cidades mais violentas dos Estados Unidos e a juventude local se vê diariamente presa entre a barbaridade das gangues de rua e dos traficantes de drogas, de um lado, e da repressão e agressividade policial do outro; é uma cidade literalmente marginal, vivendo na periferia de Los Angeles, tão perto geograficamente do glamour hollywoodiano, mas tão longe das fantasias do cinema americano. Crescendo em um ambiente sem esperança e sem expectativas, os jovens de Compton se voltaram para a música e começaram a produzir um som único, referente à realidade deles; uma forma de terem voz, de se expressarem, e de garantirem que a sua luta cotidiana não seria ignorada.

A história da N.W.A. merecia ser contada, a vida desses garotos merecia, sem dúvidas, um filme. Dispostos a tal tarefa, reuniram-se o diretor F. Gary Gray e os produtores Ice Cube, Dr. Dre e Tomica Woods-Wright (a viúva de Eazy-E). Os problemas do filme começam aí: ter parte dos personagens retratados no filme na lista de produtores já é o suficiente para deixar muita gente em dúvida sobre a credibilidade do projeto. Não é por acaso que Dre e Cube são vistos no filme como heróis geniais, eternamente injustiçados por empresários inescrupulosos—no caso, Jerry Heller (Paul Giamatti) e Suge Knight (R. Marcos Taylor). Não é por acaso que qualquer defeito dos jovens é convenientemente omitido, como o histórico de agressão doméstica de Dre, que é mencionado muito brevemente no filme. Não é por acaso que Ren, uma das maiores forças criativas da N.W.A., teve seu papel diminuído a uma mera presença coadjuvante, do tipo que faria qualquer espectador duvidar da sua participação efetiva no grupo.

Straight Outta Compton é uma cinebiografia e, como tanto, espera-se certas licenças criativas em relação à história. Ele não é um documentário afinal, é uma obra de ficção e, apesar de ser baseada em fatos reais, não deveria ter uma relação tão intransigente com a realidade. Portanto, qualquer liberdade artística pode ser perdoada e não deveria contar contra o filme. Mas os problemas de Straight Outta Compton vão além disso: o filme peca por uma completa falta de arestas. A história da N.W.A. deveria ser um poliedro de infinitos lados, pronto para rasgar qualquer superfície em que fosse arremessada; no entanto, ela mais parece uma esfera de isopor, incapaz de machucar o mais frágil dos alvos. Isso não é culpa dos atores, que estão muito bem no filme e—mais importante—parecem se dedicar integralmente a seus papéis. Outro ponto positivo são as cenas de violência policial contra os membros do grupo: o filme tem a oportunidade de falar sobre um problema sério, que afeta imensamente os EUA—e o Brasil—até os dias de hoje. Porém, Straight Outta Compton não parece interessado em falar sobre racismo mais do que o absolutamente necessário e esse tema é logo esquecido.

Infelizmente, a sensação final é que Straight Outta Compton é uma grande oportunidade perdida e a culpa é da equipe de produtores que, ao contar a trajetória da maior banda de gangsta rap de todos os tempos, decidiu fazer um filme sem atitude. E, para a N.W.A., isso é imperdoável.

Sobre o Autor

Daniel Lomba
Um entusiasta de cultura em todas as suas formas.

Comentários
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