Som de Segunda: Ninguém Tomba Liniker e Os Caramelows


liniker

Há quase um ano, Liniker Barros soltou na web seu primeiro EP, Cru (2015), com apenas três músicas que fizeram a carreira da cantora deslanchar devido a grande repercussão, principalmente da faixa “Zero”, a mais executada dela nos serviços de streaming. Na ativa desde 2014, a artista de Araraquara, São Paulo, lançou seu primeiro disco na última sexta-feira (16). Remonta (2016) é um registro grandioso e mostra o incrível trabalho de Liniker e os Caramelows, sua banda/família musical, na construção de uma sonoridade clássica, e moderna.

O repertório do disco conta com as três faixas de Cru, além de canções que já eram executadas nos shows do grupo. O título sugere uma reconstrução que pode ser relacionada à própria identidade da Liniker, que transita entre gêneros. Essa reconstrução aparece já no início do disco com as novas versões para as já conhecidas “Remonta” e “Caeu”. A primeira, que já era tocada ao vivo, ganhou um arranjo de cordas feito pelo produtor Márcio Arantes – que toca com Tulipa Ruiz – que engrandeceu a faixa. Isso sem falar da passagem circense com os metais no refrão.

Outro detalhe sobre o disco é que ele deixa mais explícita a influência da black music nas canções do conjunto. “Prendedor de Varal”, por exemplo, traz uma pegada soul de Tim Maia, e a própria letra cita um trecho de “Chocolate”. Em “Tua”, o clima jazzístico toma conta e fica reforçado pelos vocais da caramela Renata Éssis e da rapper Tássia Reis. O clima segue para “Lina X”. A trilogia feminina termina com “Louise du Brésil”, que no álbum ganhou uma versão mais suingada e funkeada. Impossível ficar parado ao ouvir.

Liniker tem um talento grande como compositor, escrevendo letras sensuais, fáceis para se cantar junto, mas com profundidade emocional. É o caso da apaixonada “Sem Nome, Mas Com Endereço”, que ganhou força com a sanfona de Marcelo Jeneci, que tem uma das letras mais bonitas do disco. Evocando a voz de Tim Maia, a cantora também diverte no debochado bolero “Você Fez Merda”.

“BoxOkê”, primeiro single do álbum, tem uma história interessante. A música foi composta em parceria com Tássia, que canta também nessa faixa, pelo chat do Facebook. O resultado foi esse “karakoê” funkeado, que também tem participação da banda Aeromoças e Tenistas Russas, ótimo para cantar embaixo do chuveiro, como sugere a música, que fala também sobre empoderamento, afinal, ninguém tomba a fita dessa turma.

Na parte final do álbum chega uma repaginada “Zero”, com um clima setentista, combinando com a letra e a voz poderosa de Liniker. Difícil não ficar bagunçado ao ouvir. O grand finale fica com a visceral “Ralador de Pia”, que ganha reforço de Tulipa Ruiz, Assucena Assucena e Raquel Vírgina – as duas vocalista d’As Bahias e a Cozinha Mineira. A canção emocional começa intimista e ganha força até explodir no refrão com todas cantando juntas, fechando o disco com uma força bonita de se ouvir.

Com tanto reconhecimento em tão pouco tempo, não há dúvidas de que o trabalho do grupo – que perdeu a caramela Bárbara Rosa, que se tratava de um câncer, em junho – não será passageiro, e muita gente que não conhece o trabalho deles ainda deve se surpreender e se caramelizar. É pra ficar mordido mesmo.

Ouça o disco:

Sobre o Autor

PH Rosa
Jornalista, autor de contos que nunca viram a luz do dia, viciado em música e comprador compulsivo de livros, discos e tênis. Se diz bom amigo, mas prefere ir ao cinema sozinho. Ama descobrir novos sons e escrever sobre canções que causam arrepio.

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