Sobre Hermione e a Representatividade

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Recentemente, a produção da peça teatral Harry Potter and the Cursed Child, uma continuação direta da série de livros escrita por J.K. Rowling, divulgou uma foto com os atores que interpretarão o trio de protagonistas da série. A escalação da atriz Noma Dumezweni, uma mulher negra, como Hermione Granger causou estranhamento em um grande número de fãs que estavam acostumados a imaginar a personagem como caucasiana—imagem esta que foi reforçada pelas ilustrações oficiais dos livros e, principalmente, pelos oito filmes, em que a atriz Emma Watson interpretava a bruxinha.

Dumezweni, contudo, não difere muito da descrição da personagem apresentada no livro. Como este post mostra bem e como a própria Rowling fez questão de deixar claro, a cor da pele de Hermione nunca é explicitada em nenhum dos livros. Ela é apenas descrita como tendo “cabelo frisado e olhos castanhos,” deixando questões de raça abertas para discussão—ou, muito mais provavelmente, para a interpretação de cada leitor.

Muitos poderão, agora, falar: “Ah, mas já que o filme—e todo mundo—imagina ela como branca, então é melhor manter assim, né?” E para isso eu pergunto: Por quê? Por que motivo é melhor manter assim? Por que não podemos deixar uma questão tão vaga quanto essa em aberto? E, mais importante, por que não devemos fazer o máximo para incluir o mínimo de representatividade dentro dos bastiões da cultura popular? Harry Potter já é bastante pouco representativo; a grande maioria dos atores é caucasiana e nenhuma personagem de grande relevância na série é negra—fato que não muda na recente incursão cinematográfica do universo de Rowling, Animais Fantásticos e Onde Habitam.

Heróis de histórias precisam, antes de tudo, gerar uma espécie de identificação com o leitor/espectador. É isso que diz a teoria d’O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell: o protagonista deve ser bastante genérico; assim, o leitor conseguirá facilmente se imaginar no lugar dele e apreciará mais sua saga. Hermione é uma bruxa inteligente, gentil, amorosa e perspicaz: ela é o tipo de exemplo que qualquer jovem deveria se inspirar e seguir. O fato de que ela não teria uma cor de pele definida poderia significar muito para meninas negras que já não se veem representadas em quase nenhum lugar. Hermione é nascida trouxa, ela sofre preconceito dentro do mundo bruxo por ser considerada não-pura, suja, inferior. Hermione efetivamente luta pela libertação dos Elfos Domésticos, criaturas que vivem em um regime semelhante à escravidão. O fato dela ser negra não faria isso tudo representar muito mais?

Outras pessoas poderão, ainda, falar: “Mas cor de pele não deveria importar tanto.” Quem fala isso obviamente nunca sofreu algum tipo de discriminação. Cor de pele importa sim. Importa muito. Obviamente, em um mundo utópico e ideal, as pessoas não deveriam ser julgadas por coisas tão banais quanto raça, orientação sexual, gênero ou religião. Mas o mundo não é assim; nós somos frutos da nossa história, nós vivemos dentro de um contexto. Falar que a raça de uma pessoa não deveria importar na hora de escolher um papel ou conseguir um emprego apenas ajuda a garantir que pessoas em posições de poder continuem a segregar e isolar minorias.

Por esse motivo, ações como a escolha de uma Hermione negra—ou de um protagonista negro, como o caso de Star Wars: O Despertar da Força—são muito mais do que liberdades criativas: elas são afirmações sociais, elas são clamores de vozes já há muito tempo silenciadas, ganhando, aos poucos, a força para continuar a gritar.

Sobre o Autor

Daniel Lomba
Um entusiasta de cultura em todas as suas formas.

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