Sicario: Terra de Ninguém – Crítica

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Marcas da Violência

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Direção: Denis Villeneuve

Elenco: Emily Blunt, Benicio Del Toro, Josh Brolin

Nota: 4 de 5 estrelas

 

Violência é inevitável. Podemos tentar fugir dela, escapar para uma utopia de paz e boa-fé entre os homens, onde nada de ruim acontece e todos conseguem viver em harmonia com o próximo; mas sempre saberemos internamente que isso não é a realidade, que isso é uma fantasia, um ardente desejo dentro de nós que vive se recusando a acreditar que, sim, existe maldade no mundo e, sim, ela é endêmica ao nosso gênero.

Nos tempos romanos, um termo foi desenvolvido para definir um grupo de zelotas judeus extremistas, que abusavam da violência para expulsar os soldados do Império da Judeia: sicários. Eles eram assim conhecidos por causa das adagas curtas—facilmente ocultas debaixo da roupa até algum momento oportuno—que utilizavam para matar seus inimigos. Atualmente, o termo evoluiu: ele agora designa os matadores de aluguel, os capangas a serviço dos cartéis de drogas mexicanos. Na Ciudad Juárez, considerada a mais violenta do mundo, os sicários matam dezenas de pessoas diariamente. Os cartéis da cidade vivem em guerra constante e os cidadãos precisam acordar todo dia prontos para uma batalha.

Em Sicario: Terra de Ninguém, o diretor Denis Villeneuve—de Incêndios, Os Suspeitos e O Homem Duplicado—se esforça para transmitir ao espectador esse mesmo clima. A violência extrema está presente desde o inicio do filme, quando a agente do FBI Kate Macer (Emily Blunt) e sua equipe descobrem, durante uma operação em Phoenix, no Arizona, uma casa tomada por criminosos onde estão escondidos dezenas de corpos entre as paredes. A experiência traumática de Macer, porém, tem um benefício profissional: sua atuação é elogiada por seus superiores e ela acaba sendo convidada a participar de uma equipe especial, que tem como objetivo a captura de um poderoso chefe de um dos maiores cartéis de drogas do México.

Chefiando essa equipe especial estão os inescrupulosos Matt Graver (Josh Brolin) e Alejandro (Benicio Del Toro). Graver e Alejandro não se importam de usarem métodos não-ortodoxos ou trabalharem fora dos trâmites para conseguirem o que desejam, e isso irá se opor fortemente ao estilo idealista e certinho de Macer, que ainda acredita e se prende em conceitos como justiça e lei. Aos poucos, a jovem agente perceberá que ela é apenas uma peça pequena em um jogo muito maior arquitetado pelos dois; e esse é um jogo com regras sujas, o qual ela não poderá vencer sem comprometer sua integridade.

Sicario: Terra de Ninguém prima, assim como os outros filmes de Villeneuve, pelas cenas de ação e tensão e pela duplicidade moral de seus personagens. A linha que separa os bandidos dos mocinhos no filme não é tão clara assim, e, com a exceção de Macer, que aparece como o último bastião moral, é difícil simpatizar com as ações dos protagonistas. Villeneuve aposta em nuances para expor questões mais sérias: a vida cotidiana em Ciudad Juarez, marcada pela violência e corrupção; o uso, por meio dos EUA, de qualquer artifício necessário para alcançar seus objetivos; a diferença gritante entre Ciudad Juarez e El Paso, já dentro da fronteira americana, a apenas alguns quilômetros de distância, essa segunda cidade completamente inconsciente dos terrores que acontecem na primeira. Muito mais do que um filme sobre a guerra ao tráfico internacional, Sicario é sobre como nós escolhemos ignorar os assuntos desagradáveis, desviando o olhar para não enfrentar os horrores da violência, a menos que ela aconteça no nosso próprio quintal.

Nesse aspecto, o filme é bem-sucedido. O grande problema de Sicario está em sua própria pretensão, seu exagero de autoimportância. Villeneuve é um diretor que sabe impactar o espectador, e essa é uma característica que ele já utilizou com sucesso no passado. Sicario é o seu filme mais ambicioso até o momento, e o diretor parece ciente dessa grandiosidade. Ela recheia o seu filme com cenas fortes e marcantes; algumas são até desnecessárias, e parecem inseridas no filme apenas para impressionar o espectador. Esse excesso de consciência e técnica às vezes funciona—como na incrível sequência dentro do túnel—, mas às vezes deixa quem está vendo o filme com um gosto amargo, como se ele estivesse sendo enganado pelo diretor.

Outro ponto fraco está no desenvolvimento de Kate Macer, a aparente protagonista do filme. Ela inicialmente é apresentada como uma mulher forte e uma policial competente, mas logo sua ingenuidade e seu idealismo exacerbado a tornam presa fácil para Graver e Alejandro. Ela passa a ser facilmente manipulada pelos dois, perdendo aos poucos a sua autonomia e importância na história, deixando de conduzí-la para tornar-se uma simples passageira. A atuação de Blunt ajuda a salvar um pouco a personagem; a atriz está em um de seus melhores papéis. Outro grande destaque do elenco é Del Toro e não me surpreenderia se indicações a ambos viessem no período das premiações.

Os pequenos defeitos não atrapalham de modo geral o filme, que tem méritos de sobra. Villeneuve sabe conduzir a ação de forma precisa e utiliza a fantástica trilha Jóhann Jóhannsson e a espetacular fotografia à máxima capacidade de ambas. Mas, no final, a importância de Sicario não reside no que ele mostra, mas sim, no que ele oculta: uma sociedade quebrada; uma sociedade sem leis; uma sociedade onde apenas os lobos sobrevivem, e os carneiros são devorados todos os dias; mas onde, às vezes, é preciso ser um carneiro para aguentar, com a cabeça erguida, todos os terrores da vida.

Sobre o Autor

Daniel Lomba
Um entusiasta de cultura em todas as suas formas.

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