Show Review: Queens of the Stone Age no Rock in Rio 2015

 

Começo esse post dizendo que, em todas as minhas críticas de shows, vou sempre falar do ponto de vista de uma fã, relatando minhas próprias experiências, impressões e opiniões. Vamos lá.

Depois de mais de 14 anos desde sua primeira vinda ao Rock in Rio, o Queens of The Stone Age tinha uma missão: reescrever a história. Sua apresentação de 19 de Janeiro de 2001 ficou marcada mais pela nudez de seu então baixista, Nick Oliveri, do que pela música em si. Além disso, o stoner rock do Queens ter sido escalado para o dia de bandas de metal como Sepultura e Iron Maiden foi um equívoco tremendo da programação do festival, o que fez com que a banda não tivesse o devido reconhecimento do público.

Desde então, o grupo amadureceu seu som, especialmente com seu mais recente e introspectivo trabalho,“…Like Clockwork”, lançado em 2013. Em Setembro de 2014, exatamente um ano antes de sua apresentação no Rock in Rio, o QOTSA fez show em São Paulo para um público inflamado e depois seguiu para Porto Alegre em uma mini-turnê no país. Na verdade, a relação entre esse álbum do Queens e o Brasil vem sendo bem próxima. Afinal, o Lollapalooza Brasil de 2013 viu a estreia de “My God is The Sun”, a primeira música inédita de “…Like Clockwork”, e agora o país também vê o final estendido dessa turnê, que terminou oficialmente com uma grande festa de Halloween em Los Angeles no ano passado. Nessa ocasião, Josh Homme, frontman e único membro restante da formação original do grupo, anunciou um hiato da banda até o próximo disco. Esse intervalo durou até poucas semanas atrás, quando o grupo fez um pocket show para 600 sortudos também em Los Angeles como esquenta para a sua primeira apresentação oficial do ano, que seria somente no palco principal do maior festival do mundo.

Para ver minha banda favorita se apresentar bem de perto, eu, como todos que tinham alguma esperança de pegar grade no dia 24, cheguei à Cidade do Rock antes das 14h, horário de abertura dos portões do festival e, aparentemente, também os do inferno. Estava um calor tal que as pessoas mal conseguiam se mexer. Uns rezavam para que o sol se pusesse logo, outros para não passarem mal até a hora do show que foram ver e todos rezavam para que uma chuva redentora caísse. No meio do empurra-empurra antes do primeiro show do palco mundo, fui da segunda para a primeira fileira da mini-grade de frente para a passarela. Era tudo que eu queria daquela noite – mas cuidado com o que desejas.

Depois de mal ter sobrevivido aos shows do CPM 22 e do Hollywood Vampires, percebi que ficar perto do palco não queria dizer que eu iria aproveitar o show. Pedi para o segurança me tirar da grade. Ele me olhou e disse: “Não vou te tirar não. Você não está passando mal”. Nisso, eu tinha duas escolhas: ter um ataque cardíaco ou aceitar que dali, eu não saía. Apesar de o segurança ter me sacaneado, ele me fez ver que, se já tinha aguentado tudo aquilo, o negócio era só resistir mais um pouco para ver de perto minha banda do coração. De repente, ouço a introdução do clássico filme “Cantando na Chuva”, seguida do tema musical de “Laranja Mecânica”. Eram Josh Homme e seus comparsas finalmente tomando o palco mundo para me darem uma sobrevida de energia que nem eu sabia que tinha.

Eles começaram o set como de costume com a explosiva “Millionaire” e a emendaram com seu maior hit, “No One Knows”. O público respondeu à altura do som pesado entoando o riff em coro no que infelizmente seria a sua participação mais ativa no show. Com a sua escolha de set, o Queens claramente denotava preocupação em agradar tanto ao público em geral com grandes hits como “Little Sister” e “Go With The Flow”, quanto em presentear os fãs da banda com músicas antigas e raras em apresentações ao vivo, como “Regular John” e “In My Head”.

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Entretanto, só os fãs realmente se empolgaram com o show. Eu entendo que o público, tendo sido submetido ao desgaste máximo que descrevi anteriormente, quisesse guardar suas energias para a atração que realmente estava esperando (que, para 90% dos presentes, era o headliner e não o Queens). Mas isso não justifica a falta de respeito que alguns fãs do System of a Down demonstraram durante a apresentação que eu estava lá para ver. Aos primeiros acordes da emocionante e única balada do set, “The Vampyre of Time and Memory”, eu comecei a chorar ao mesmo tempo em que um garoto gritava que “aquilo não era música, era canção de ninar”. Ou seja, com um set que vai desde sons mais pesados a baladas passando por músicas com riffs de um groove incomparável, o Queens deu a plateia algo que a grande maioria não esperava e a qual ela, consequentemente, não respondeu.

Isso não foi demérito nenhum da banda, mas sim dos programadores do festival, que cometeram o mesmo erro de 14 anos atrás. Ao escalarem o Queens para o mesmo dia do System of a Down, estavam juntando dois públicos que esperam coisas completamente diferentes. O mesmo pode ser dito sobre o dia em que as atrações principais do palco mundo eram Royal Blood e Metallica, Slipknot e Faith No More e até mesmo sobre outras edições do festival, onde puseram Elton John no mesmo dia da Rihanna, cujos fãs vaiaram a lenda da música que “abria” para ela. O festival rotula artistas como “pop”, “metal”, “rock alternativo” e os escala sem levar em conta questões como faixa etária dos fãs, subdivisões do gênero etc. Isso afeta a energia dada aos artistas durante a performance e, consequentemente, a que eles devolvem para o público. Foi exatamente o caso do Queens.

Josh teve que pedir gritos de uma plateia morta e que não fez jus à fama de empolgação do público brasileiro. Por isso, esse não foi nem de longe o melhor show do Queens, cujos integrantes sempre fazem apresentações impecáveis tecnicamente, mas se jogam sem limites quando a plateia corresponde. Todos estavam tão quietos que eu me ouvia cantar, mas talvez isso tenha sido mais uma das questões de som infelizmente já características de grandes festivais no Brasil. Senti o som um pouco abafado de onde estava e ouvi relatos de que as guitarras estavam ensurdecedoras para quem estava perto da grade de trás, onde ficavam as câmeras de filmagem. Houve falhas também no som do microfone de Josh, obrigando-os a repetir a introdução de uma música até que o problema fosse rapidamente sanado. O show foi somente de uma hora, como já de costume para as bandas antes do headliner, então a música “3’s and 7’s”, programada originalmente para ser tocada, ficou de fora do setlist. Antes de encerrarem com  “A Song For The Dead”, disseram “Somos o Queens of the Stone Age”, cortando o coração de quem sabia muito bem quem eles eram, são e serão. O esforço todo do começo do dia valeu a pena porque alguns dos maiores gênios da música atual estavam naquele palco, mas infelizmente, poucos foram os que viram isso. Os que já sabem desse fato esperam ansiosamente a sua volta, Queens.

 

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g1.globo.com

Setlist

You Think I Ain’t Worth a Dollar, but I Feel Like a Millionaire
No One Knows
My God Is the Sun
Burn the Witch
Smooth Sailing
In My Head
Regular John
Sick, Sick, Sick
The Vampyre of Time and Memory
If I Had a Tail
Little Sister
Fairweather Friends
Go With the Flow
A Song for the Dead

 

Sobre o Autor

Anna Israel
Formada em Comunicação Social – Cinema pela PUC-Rio, tive a sorte de fazer intercâmbios para a UCLA, NYU e Cornell nos EUA, de conhecer alguns dos meus grandes ídolos e de ganhar prêmios com meus trabalhos. Para viver, só preciso de cinema, TV e música. Mas boas horas de sono e chocolate também vêm a calhar.

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