Show Review: Metallica no Rock in Rio 2015

 

Cheguei à Cidade do Rock por volta das 14:30, encontrei meus amigos e andei nos brinquedos. Da roda gigante, pude constatar que a maior concentração de pontinhos pretos no mundo estava ali. O show do Metallica prometia.

Mas quando o pessoal com quem eu estava preferiu ficar longe do palco, eu decidi me infiltrar na multidão sozinha. A decisão não foi tomada levianamente; eu sou relativamente baixinha e se ficasse lá atrás, não iria ver nada. Mas a cada passo que dava, o ar ficava mais rarefeito e o mar de gente me deixava mais espremida. Ainda bem que no caminho para o palco, conheci pessoas boníssimas que foram me ajudando. Uma delas foi um simpático fã de dois metros por dois que se solidarizou com a minha situação e me acompanhou lá pra frente.

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Quando o Metallica atrasou meia hora, os fãs começaram a ficar impacientes e cada vez mais invejosos dos sortudos que ganharam o direito de verem o show de uma mini-arquibancada no palco. De repente, cenas do filme “The Good, The Bad and The Ugly” (“O Bom, o Mau e o Feio”) tomaram o telão acompanhadas pelo tema “The Ecstasy of Gold”, composto pelo mestre Ennio Morricone. O coro de fãs entoou a canção apesar de ela ser apenas instrumental, o que já mostrou que eles cantariamabsolutamente tudo pelo resto do show. Quando James, Lars, Kirk e Trujillo finalmente tomaram o palco, eu me vi numa situação inédita em toda a minha “vida de shows”. As primeiras músicas do set foram algumas das minhas favoritas, “Fuel”, “For Whom The Bell Tolls” e “Battery”, mas eu nem consegui aproveitar, pois minha primeira missão era sobreviver. O calor era tal que o suor já escorria por todo o meu corpo e fez até meus óculos ficarem embaçados. O palco estava vermelho sangue e o mar de gente me levava de um lado para o outro sem misericórdia. Não dava nem para passar mal ali, porque não havia para onde ir. Uma rodinha punk enorme estancou do meu lado e quase me engoliu. Foi a visão mais próxima que eu já tive do inferno, até mesmo a trilha sonora estava bem adequada. Afinal, quase todas as músicas da banda são sobre vida e morte e a linha bem mais tênue do que se imagina entre as duas. Não é à toa que, quando os fãs ficam quietos por um segundo, James sempre fala: “Vocês ainda estão vivos?” Naquele momento, aquelas palavras nunca fizeram mais sentido. O fã que estava me ajudando antes me explicou que se atravessássemos a rodinha punk, conseguiríamos ficar chegar mais perto do palco. Respirei fundo e fui.

 

Depois dessa insanidade inicial, o público continuou empolgadíssimo e cantando tudo, porém, a agressividade iria requerer uma energia que a maioria de nós já tinha gasto. Mas quando James anunciou que a banda iria tocar músicas de todos os discos, os fãs foram à loucura. Infelizmente, o mesmo aconteceu quando houve uma falha no som. A banda saiu do palco e alguns fãs começaram a reclamar. “Gente, não vaia! Eles vão achar que é com eles!”, alertei os que estavam ao meu redor. O pessoal logo começou um coro que mandava o Medina para aquele lugar e eu comecei a ficar nervosa. Se aquele intervalo forçado durasse muito, o que havia se transformado no céu podia virar inferno novamente. Segundo nota do festival, a culpa da falha foi da equipe técnica da própria banda.

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Ainda bem que logo depois desse incidente, o show continuou com a mesma energia e sem maiores prejuízos. O vigor dos caras é realmente impressionante – pela sua natureza, as músicas já exigem muito da banda fisicamente, mas além disso, eles não param de interagir entre si e com o público, potencializando a execução das canções e o envolvimento emocional da platéia com elas.

Outra coisa extremamente impactante foi a programação visual do show, com imagens que não só acompanham e ilustram as músicas, mas expandem seu significado e contam por si memas histórias de uma dramaticidade bem complexa. No vídeo que acompanha “Cyanide”, pessoas acordam dentro de caixões e se desesperam ao descobrirem que foram enterradas vivas. Quando a música termina, elas voltam à mesma posição inicial, só que a repetição desse plano no final adquire um contexto completamente diferente. O conceito já citado, o de “linha tênue entre vida e morte”, é resumido naquelas imagens. Simplesmente genial.

A segunda música que impressionou pelas imagens foi “One”, que mostrou silhuetas de soldados andando na mesma direção em câmera lenta. Em dado momento, esqueletos cobertos por mantos pretos vêm de encontro aos soldados nas trincheiras. De arrepiar. Apesar de fazer músicas bem agressivas, a banda é da paz e chegou até a exigir que o exército norte-americano parasse de usar suas músicas em sessões de tortura no Iraque.

 

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O show foi recheado de solos inspirados de Kirk – que inclusive deixou uma fã da mini-arquibancada tocar em sua guitarra – e das linhas de baixo de Trujillo que, de tão graves, faziam tremer o coração (literalmente, acreditem). Por falar nisso, James dedicou “Whiskey in the Jar” a Cliff Burton, ex-baixista do Metallica que morreu em um acidente de ônibus enquanto a banda estava em turnê na Suécia. Foi um dos momentos mais emocionantes do show, pois todos os fãs gritaram em coro o nome dele.

A banda estava tão visivelmente comovida com a recepção calorosa que cada membro fez questão de agradecer individualmente o carinho de todos ao fim do show. Nisso, Lars revelou que aquele era o último show do ano para eles e que eles iriam para estúdio gravar um novo CD, o sucessor de “Death Magnetic”, lançado há 7 anos. Depois dos agradecimentos, devolveram o carinho em forma de “tesouros” desse show histórico: jogaram palhetas e baquetas para um ávido público. Nessa hora, todos abaixaram ao mesmo tempo para tentar achar os itens caídos no chão, então nem tentei ir com o fluxo. Ao invés disso, aproveitei que havia conseguido chegar até a grade para falar com um dos seguranças depois do fim do show e acabei conseguindo uma palheta para mim e uma setlist para o fã gentil que tinha me ajudado durante o show inteiro. Ou seja, no primeiro dia de Rock in Rio, fui do inferno ao céu em duas horas – e foi inesquecível. E que venha o dia 24!

 

 

Sobre o Autor

Anna Israel
Formada em Comunicação Social – Cinema pela PUC-Rio, tive a sorte de fazer intercâmbios para a UCLA, NYU e Cornell nos EUA, de conhecer alguns dos meus grandes ídolos e de ganhar prêmios com meus trabalhos. Para viver, só preciso de cinema, TV e música. Mas boas horas de sono e chocolate também vêm a calhar.

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