Ressaca Lollapalooza 2015 – Show Review – Interpol

 

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Sou suspeita pra falar sobre um show que espero ansiosamente para ver de novo há sete anos. Quando o Interpol veio ao Rio na turnê solo do disco Our Love to Admire, seu terceiro trabalho, a apresentação na Fundição Progresso foi de uma simpatia admirável para com os fãs e de uma precisão absoluta no palco, apesar da goteira na cabeça do sensacional frontman Paul Banks e até dos morcegos voando – o que, pensando bem, foi bastante adequado ao tom soturno das músicas da banda. Hoje, depois da saída do baixista Carlos Dengler e de mais dois discos lançados, o grupo ainda prova que não tem tempo ruim que os afaste do som único que fazem, tanto de modo metafórico quanto literal.

A carga emocional da combinação dos riffs da guitarra de Daniel Kessler com os graves no vocal de Paul Banks e a batida certeira ditada por Sam Fogarino é tão eficaz que parece resultar em uma melancolia que se manifesta até no clima. Mas nem o céu nublado e a chuva quase que simbólica acalmaram o ânimo do público que esperava há anos por outro show da banda no país.

Com esses fãs em mente, o Interpol, diferentemente de grupos que acabaram de lançar CD, montou um setlist balanceado com músicas de todos os álbuns, mesmo com as limitações de tempo de palco típicas de festival. Foi assim que a banda representou bem El Pintor, seu mais recente álbum (que apesar da saída de um dos membros formadores, representa uma volta à sonoridade original da banda, só que combinada com a maturidade adquirida ao longo da carreira), sem esquecer dos seguidores mais antigos.

Por isso, a plateia foi à loucura, especialmente a da parte esquerda do palco, que inclusive levou uma faixa especial para eles. Kessler respondeu à altura, esbanjando bom humor, passos de dança característicos e muitos sorrisos. Ele chegou a pedir para um roadie entregar um item dele especificamente para uma pessoa da platéia ao fim do show, fazendo a alegria não só de um fã, mas de todos os que ali estavam. A empolgação dele era tamanha que impediu que ele se afetasse pelo ajuste de som quase amador de tão ruim. Teve estática, o som estava baixo… Eu cantava junto e me ouvia, o que é simplesmente inconcebível. Mas mesmo quando o retorno de Kessler dava problemas, o guitarrista o tirava do ouvido e continuava com o mesmo espírito. O mesmo não foi verdadeiro para Paul Banks.

Um perfeccionista nato, detalhista incorrigível e uma das pessoas mais sérias do mundo da música, Banks não teve a mesma reação aos erros da técnica do festival. O vocalista e compositor pedia constantemente para aumentar o volume de sua guitarra e, ao não ser atendido, ficou visivelmente incomodado e decepcionado com os problemas no som, deixando o lado direito do palco levemente desguarnecido da mesma energia. Já Sam Fogarino se manteve concentrado na bateria o tempo inteiro e seu foco contribuiu muito para o sucesso do show.

Mas, ao longo da apresentação, Paul notou que a platéia estava com ele não importava o que acontecesse. A cada música que terminava, ele agradecia em bom Português e lançava um discreto sorriso. Mesmo sendo sério como poucos no palco, no fim, Banks disse que é ótimo estar de volta ao Brasil, que nós somos um “puta público” (a fucking great audience) e que o Brasil é um lugar maravilhoso, e um lugar maravilhoso de se estar. De fato, não foi só da boca pra fora.

Kessler postou no Instagram da banda várias fotos daqui e, em uma delas, ele empunhava a bandeira que foi dada a eles durante o show. Ele dizia que os dias passados aqui estavam sendo tão bons que ele resolvera estender sua estadia. Para os nova iorquinos da banda, a cinzenta São Paulo, ainda mais com um público tão receptivo, com certeza os fez sentir em casa. É por isso que com o Interpol, não tem tempo ruim. E a receita é simples – deixar as músicas falarem por si próprias já traz toda a emoção de que um excelente show precisa.

Se você, como os outros fãs, deseja pedir a volta deles o mais rápido possível, se junte à campanha aqui.


Fotografia bônus: Essa sou eu, ridiculamente feliz de ter pego não uma, mas duas setlists. Vi tudo da grade e ainda consegui presentear uma fã que estava perto de mim. “Success” faltou na setlist mas, definitivamente, não no show.

Lollapalooza 2015 Interpol

 

Sobre o Autor

Anna Israel
Formada em Comunicação Social – Cinema pela PUC-Rio, tive a sorte de fazer intercâmbios para a UCLA, NYU e Cornell nos EUA, de conhecer alguns dos meus grandes ídolos e de ganhar prêmios com meus trabalhos. Para viver, só preciso de cinema, TV e música. Mas boas horas de sono e chocolate também vêm a calhar.

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