Resenha Literarária – O Último Grito

De Ponta


 

Existe uma ideia muito bem definida sobre o que é um romance histórico. Ela geralmente consiste de castelos medievais, princesas europeias e intrigas de corte; ou então grandes casarões, romances bucólicos no meio das grandes pradarias americanas ou campos ingleses, com cavalheiros charmosos e damas independentes. Ninguém em sã consciência pensaria em um romance histórico passado em 2001, em Manhattan. Mas é justamente isso que Thomas Pynchon faz em seu mais recente livro, O Último Grito: partindo da primavera de 2001, pouco após a grande quebra da bolha tecnológica e pouco antes dos grandes atentados terroristas às Torres Gêmeas, Pynchon desenvolve uma trama complexa e cheia de conspirações no meio de um período especialmente marcante da história recente americana.

Pynchon é, sem dúvida, um dos maiores escritores da sua geração: recluso e rebelde, o autor se consagrou como um grande nome da contracultura americana com clássicos como V. e O Arco-Íris da Gravidade. Ler Pynchon é muito mais imergir em suas histórias do que um processo convencional de leitura: todos os seus livros são abarrotados de referências—algumas obscuras demais e ininteligíveis para qualquer um além do próprio escritor—, gírias modernas e jargões antigos, deturpações de sintaxe e gramática—tudo isso a ponto de deixar seus livros quase incompreensíveis. E isso é balanceado com situações inverossímeis, cenas esdrúxulas e personagens cartunescos. O humor de Pynchon é algo, na maior parte, bobo, imaturo, que seria quase infantil se não fosse pelos toques ácidos.

Tudo isso poderia mascarar a grandiosidade de suas obras, mas não se engane: Pynchon é um escritor como poucos, escondendo sob camadas de baboseiras uma erudição e uma genialidade absurdas. Pois o autor está o tempo todo consciente do que está fazendo: Pynchon brinca com as situações e com a linguagem com a segurança e a familiaridade de quem pode se permitir brincar. Mas justamente isso apresenta uma complicação adicional à tradução de suas obras, já que grande parte de seu poder como escritor não está propriamente na narrativa, mas sim em como ela é construída. Em O Último Grito, traduzido pelo excelente Paulo Henriques Britto, a voz oficial de Pynchon no Brasil, isso fica claro. Por melhor que Henriques Britto seja, alguns momentos são simplesmente intraduzíveis: o tradutor opta por simplificar a prosa, retirando grande parte das liberdades de Pynchon—como, pro exemplo, seu trabalho com a grafia de certas palavras e, um dos meus favoritos, o uso de O-O quando ele quer dizer olhou—, o que torna o romance mais legível, mas o que o faz perder grande parte do seu charme.

O Último Grito conta a história de Maxine, uma investigadora de fraudes que é contratada para investigar algumas transações misteriosas e suspeitamente sigilosas de uma empresa de tecnologia chamada hashslingzr, comandada pelo igualmente suspeito Gabriel Ice. Durante sua investigação, Maxine é arrastada cada vez mais fundo em um mundo de conspirações—e cada vez mais fundo dentro da própria rede, indo até os limites da DeepWeb—, passando por um rol de personagens cada vez mais excêntricos e loucos. O livro, com toques de policial e de comédia, seria basicamente o que você teria se a Tina Fey decidisse escrever uma temporada de NYPD Blue.

Como nos outros livros de Pynchon, o mistério é o de menos: na verdade, o autor está pouco ligando para a investigação de Maxine e aonde ela vai dar. Ele também não parece particularmente preocupado com o caminho: na verdade, O Último Grito é menos um romance bem-estruturado do que uma colagem de situações, todas conectadas, obviamente, e todas com um único propósito, mas sem uma direção. O final do livro vai além do tradicional final aberto: ele parece verdadeiramente incompleto. Porém, a genuinidade e ausência de cinismo na escrita de Pynchon transforma isso em uma vantagem: O Último Grito parece, mais do que tudo, uma carta de amor à obra ficcional; uma ode ao ato da leitura em função de si mesma. Ao mesmo tempo, o livro serve mais como um veículo para as paranoias de seu autor; um meio para ele desenrolar a trama emaranhada de conspirações e intrigas, todas altamente prováveis e, ao menos tempo, incrivelmente delirantes.

São nesses momentos que O Último Grito mostra todos os ingredientes de romance histórico de primeira: trazendo toda a paranoia de seu autor, ele usa a história como ponto de partida para construir uma narrativa igualmente possível e improvável. Com isso, poder-se-ia até dizer que Pynchon se aproxima muito de Umberto Eco, o grande mestre do gênero—e, de fato, O Último Grito seria exatamente o tipo de livro que Eco escreveria se ele fosse menos interessado em simbologia medievalista e mais interessado em programas de TV ruins, ou música punk, ou rap asiático. Ambos os autores, de forma genial, quebram os padrões da escrita, mas enquanto Eco faz isso de uma maneira formal e altamente acadêmica, Pynchon prefere fazer isso explodindo qualquer tipo de convenção: ele basicamente pega todas as regras e bate elas no liquidificador para ver o que resulta da mistura. A erudição de Pynchon aparece em como ele manda qualquer tipo de academicismo às favas.

O que resulta de toda essa experimentação é um livro estranho, mas extremamente importante. Em O Último Grito, no meio da selva que é Manhattan, ou que é a rede, o mais fraco sempre acabará perdendo espaço—ou pior: sempre acabará inundado com uma propaganda cada vez mais agressiva sobre o que é liberdade. Em tons extremamente agourentos, o livro fala sobre a perda de inocência, de um sonho, de uma imagem de nós mesmos que nunca foi real. Ao mesmo tempo, ele questiona o próprio conceito de realidade e virtualidade, e mostra uma gentrificação que anestesia tanto um quanto o outro. Ler Pynchon é muito menos compreender os seus conceitos, que são aterrorizantes, confusos e grandiosos, do que experimentar a sua história. Como falei, não é necessariamente sobre a jornada, nem é necessariamente sobre o destino; mas sim, é sobre a sua reação a tudo. É como apontar uma flecha para o abismo, incerto sobre o que exatamente você está procurando, e o que no final você acabará atingindo.

Sobre o Autor

Daniel Lomba
Um entusiasta de cultura em todas as suas formas.

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