Quinta da Nostalgia: 40 anos de independência de Moçambique e o Cinema

 

A primeira ação cultural de Samora Machel, líder militar do governo de Moçambique em 1975, logo após a conquista da independência de Portugal foi a criação do Instituto Nacional de Cinema (INC).

samora

Como não havia televisão na época e as pessoas não tinham conhecimentos sobre como realizar filmes, cuidar da captação de som ou editar as imagens captadas, esta equipe recebia os equipamentos para aprender o ofício do audiovisual. O cinema era visto como uma força de impulsionar avanços nesta época de desenvolvimento pós-colonial e era um forte instrumento de educação.

Na área política, significava uma engenhosa forma de unificação e estruturação do regime socialista. O líder Samora Machel, tinha especial consciência deste poder da imagem e de como utilizá-la para construir uma imagem de uma nova nação socialista emergente.

As salas de cinema nacionalizadas e unidades de cinema móvel começaram a mostrar por todo o país a mais popular produção do INC, o jornal de atualidades cinematográficas chamado Kuxa Kanema, cujo principal objetivo era “filmar a imagem do povo e devolvê-la ao povo”.

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Kuxa Kanema produziu 395 edições semanais, 119 curtas-metragens documentais e 13 longas-metragens documentários. Este movimento cinematográfico foi inspirado por “Rumo a um Terceiro Cinema”, um manifesto escrito por Octavio Gettino e Fernando Solanas, que significava uma nova esperança cinematográfica. Esta influência se espalhou por todo o mundo em países como Cuba, Angola, Brasil (na época do Cinema Novo) e Moçambique.

O cinema radical e revolucionário de Moçambique atraiu muitos grandes nomes do exterior. Um dos primeiros nomes do cinema foi Ruy Guerra, nascido em Moçambique, mas que emigrou para o Brasil e  tornou-se um líder do movimento do Cinema Novo.

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O filme Mueda, Memória e Massacre (1979), de Ruy Guerra, é uma reconstituição cinematográfica do Massacre de Mueda, um dos últimos episódios de resistência da história contra o colonialismo português antes do início da Guerra Colonial em 1964.  Este é considerado o primeiro longa-metragem de ficção de Moçambique.

O filme de Ruy Guerra, produzido pelo INC é o registro do principal simbólico desta guerra colonial em Moçambique. É um filme que foi feito sem uso de imagens de arquivo e que representa a preservação da grande memória cinematográfica deste acontecimento da época.

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Jean Luc Godard também viajou para o país em 1978. O cineasta francês teve uma grande ideia de criar uma estação de televisão em Moçambique com a proposta de oferecer equipamentos para o povo local produzir o próprio trabalho e distribuir os resultados para e pelo país.

Houve uma grande discordância com o governo, que tinha a política governamental de produzir documentários institucionais e de propaganda, e já que o cineasta Ruy Guerra tinha uma visão de fazer um cinema livre, preferencialmente de ficção,  nada deu certo. Tantos planos fracassaram e quando a Guerra Civil começou, os intelectuais resolveram ir embora. Mas, de tantos esforços em conjunto de implantar o cinema em Moçambique, podemos dizer que esta foi uma das tentativas mais ousadas para trazer o socialismo nas mãos do povo.

O INC, infelizmente, foi destruído por um grande incêndio em 1991. O fogo queimou todo o equipamento de produção e grande parte dos filmes do acervo. Sobraram apenas 25 mil latas com imagens do tempo colonial ao pós-independência. Estes filmes eram os únicos testemunhos dos 11 primeiros anos de independência e dos anos da revolução socialista, mas que por falta de conservação estão em estado de degradação.

O Estado deixou de dar qualquer tipo de apoio ao desenvolvimento do setor do cinema e então, os cineastas uniram-se a empresas de produção cinematográfica e suas produções passaram a ser feitas em vídeo. As poucas obras realizadas foram frutos de financiamentos de organizações não governamentais.

A produção moçambicana é marcada por uma forte predominância do documentário com uma grande experiência de mais de 400 títulos produzidos até 1992.

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Cinema Olympia

Em 2003, nasceu a AMOCINE (Associação Moçambicana de Cineastas) com o objetivo de revitalizar o crescimento das produções do cinema em Moçambique. Graças a ela, foi possível cirar um fundo de apoio e desenvolvimento do cinema aliado a um grande suporte de financiamento da Cooperação Francesa, através do Fundo de Apoio a Cinematografia Nacional.

Apesar de várias obras cinematográficas de cineastas de Moçambique terem conquistado prêmios pelo mundo, o governo se mantém indiferente ao incentivo de criar políticas de crescimento do cinema no Estado. Não existem estruturas de distribuição de filmes e grande parte do patrimônio e acervo cinematográfico encontra-se arquivado.

O futuro do cinema em Moçambique passa pela revitalização do INAC (Instituto Nacional de Audiovisual e Cinema), antigo INC, e desse esforço, o arquivo de filmes que conseguiu escapar do incêndio de 1991 está em inventário pela Cinemateca, com apoio da Cooperação Portuguesa e da Unesco para enfim, poder estudar e elaborar estratégias de recuperação e manutenção deste precioso acervo de memória de um povo.

 

Sobre o Autor

Ellen Ferreira
Cineasta e Jornalista. Ama se refugiar no cinema, maratonar séries e ouvir trilhas sonoras de filmes enquanto trabalha. Gostaria de ter trocado correspondências de amizade com o genial J.R.R Tolkien e de ter dirigido os filmes da era de ouro de Hollywood. Dedicada a criar, fazer filmes, pesquisar, escrever histórias e desbravar o máximo da cultura mundial.

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