A Qualquer Custo – Crítica

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Onde Os Velhos Não Têm Vez

Direção: David Mackenzie

Elenco: Jeff Bridges, Chris Pine, Ben Foster

Roteiro: Taylor Sheridan

É necessário um tipo especial de pessoa para compreender a violência. Muitos conseguem entendê-la; conseguem lançar seu olhar frio sobre atos violentos e analisá-los com precisão cirúrgica. Mas pouquíssimos são os que a compreendem de verdade; pouquíssimos são aqueles que conseguem olhar para ela e saber exatamente o que leva uma pessoa a cometer brutalidades contra outras, contra semelhantes; enxergar o buraco negro dentro de cada um que é capaz de cometer tais brutalidades, que, inclusive, sente necessidade de cometê-las. Para se escrever um bom western, um autor precisa ter esse dom, precisa ser capaz de enxergar nos outros homens a besta selvagem que eles possuem dentro de si. Cormac McCarthy, por exemplo, tem esse dom; Taylor Sheridan também.

Talvez nenhuma outra pessoa tenha conseguido passar tão bem a visão de McCarthy para o cinema quanto Sheridan. James Franco tentou exaustivamente, mas, coitado, ele é fraco demais: ele é um intelectual de cidade, sem carapaça, eternamente sonhando com homens de fronteiras e suas mil aventuras nas planícies americanas, mas incapaz de entendê-los; ele não duraria um dia vivendo em condições selvagens. O próprio McCarthy também tentou entrar no meio cinematográfico com O Conselheiro do Crime, mas, por algum motivo, não deu certo: faltava nele a força brutal de suas obras, a inevitabilidade cruel da condição dos homens. Por muito tempo, as únicas coisas que os fãs de McCarthy tiveram foram o excelente Onde os Fracos Não Têm Vez—que é ótimo, apesar de não exatamente pelos mesmo motivos que fazem da obra original de McCarthy ser ótima—e o meia-boca A Estrada—que vale a pena por Viggo Mortensen, mas pouco além disso. Mas aí chegou Sheridan.

O ator já havia mostrado em seu primeiro filme como roteirista, Sicário: Terra de Ninguém, um entendimento extraordinário da simplicidade da violência—com ecos de Meridiano de Sangue em sua selvageria corriqueira. Em A Qualquer Custo, Sheridan evoca um outro tipo de violência: um tipo mais sutil, com menos sangue jorrando e crânios quebrando, mas um tipo tão devastador quanto. “Eu fui pobre minha vida inteira, é como uma doença passando de geração para geração,” diz Toby Howard (Chris Pine) em um dos melhores momentos do filme; em A Qualquer Custo, a violência desencadeada por Toby e seu irmão (Ben Foster) contra a rede de bancos Texas Midland é apenas a resposta natural à violência imposta pelo banco à família deles por anos. Uma violência discreta, que lentamente sugou a mãe deles por meses como um câncer, mantendo-a viva o suficiente para que ela pudesse apenas pagar o que devia e nada mais.

Mas mais do que apenas falar da violência dos grandes bancos contra pessoas comuns, A Qualquer Custo vai além: ele fala sobre mudança. A mudança coletiva da sociedade, a perda de um estilo de vida que já não existe mais; e a mudança pessoal de um homem, sua velhice e seu sentimento de impotência por passar o resto dos seus dias sentados no alpendre em frente à sua casa. É a inexorável brutalidade do tempo, que destrói tanto sociedades quanto pessoas, e que eventualmente irá esmagar até aqueles mais resistentes às mudanças, até aqueles que estão acostumados a servirem o mesmo prato de filé com batatas há quarenta e quatro anos.

No comando do filme, o diretor David Mackenzie traz o roteiro de Sheridan à vida, infundindo com imagens belíssimas e uma trilha desoladora—assinada por ninguém menos que Nick Cave. Mackenzie não só faz justiça ao roteiro, mas presta homenagem a ele, dando ampla oportunidade para ele brilhar. É raro quando um diretor dá esse tipo de espaço para um roteirista—e, inclusive, uma grande crítica que eu tive a Sicário foi que Villeneuve não deu a mesma oportunidade a Sheridan naquela ocasião. Desta vez, porém, a fotografia e direção de arte nunca tiram o foco da história que está sendo contada, mas apenas incrementam ela.

A Qualquer Custo também conta com atuações fantásticas de seu trio protagonista. Pine e Foster surpreendem em seus melhores papeis até o momento—o que, precisamos admitir, não é algo difícil—, mas é Jeff Bridges como o policial Marcus Hamilton quem realmente rouba a cena. Atuando desde que era um bebê, Bridges passou sua carreira inteira esperando pelo momento em que finalmente teria a chance de fazer aquilo que ele nasceu para fazer: interpretar homens velhos e cansados com a vida. Sua performance não apenas impressiona pela presença e charme, mas também encanta pelo silêncio e melancolia. Apesar de Hamilton ser, dos três protagonistas, aquele que menos revela sua história, Bridges consegue fazer ele ser o mais identificável dos três.

Mas apesar dos seus inúmeros pontos positivos, o maior mérito de A Qualquer Custo ainda está no roteiro de Sheridan. O filme justamente funciona porque tudo nele favorece o roteiro, e nada detrai dele. Não é sempre que aparece alguém capaz de olhar nos olhos de homens e enxergar o que eles escondem em seus corações. Quando isso acontece, é realmente preciso valorizar.

Sobre o Autor

Daniel Lomba
Um entusiasta de cultura em todas as suas formas.

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