Especial Festival do Rio: Crítica de Mr. Turner

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Mr. Turner - Timothy Spall

Focus Features

“Pinceladas de um Mestre.”

 

Quando contar uma história, garanta que ela seja boa. Essa afirmação é óbvia – poucas pessoas, afinal, decidirão contar uma história que elas considerem ruim –, mas não é tão simples de executar; especialmente considerando que pessoas diferentes muitas vezes têm ideias divergentes do que é uma história boa. Talvez o melhor, então, seja ficar com outra afirmação, tão verdadeira quanto a primeira, mas mais universal em seu significado: quando contar uma história, garanta que ela valha a pena ser contada.

Isso se torna consideravelmente mais complicado quando a obra em questão é de cunho biográfico. Sendo sincero, é preciso admitir que poucas vezes a vida real apresenta-se como mais palatável que a ficção: não há uma linha moral clara; as ações dos personagens não são inteiramente bem definidas; não existe, nitidamente, um protagonista ou um antagonista. É por isso que artistas, buscando tornar sua obra acessível para a grande parte do público, irão moldá-la de tal modo a torná-la quasificcional: escritores encherão o seus livros com anedotas que não acontecerão exatamente daquela maneira; pintores irão pincelar sobre imperfeições para capturar uma maior beleza da cena; diretores de cinema transformarão pessoas em heróis e vilões.

Portanto, em meio ao mar de biografias desapontadoras dos últimos tempos, Mr. Turner, de Mike Leigh, surge como uma boia salvadora. Olhe lá, consegue vê-la? É aquele ponto vermelho quebrando as águas azuis. Aquele ponto que não deveria estar lá, imperfeito, mas que representa, em sua imperfeição, comportamentos inteiramente humanos.

O filme retrata os últimos anos de vida de J.M.W. Turner, pintor romântico do século XIX que com suas telas retratando paisagens – em especial, marítimas – surgiu como um precursor do movimento impressionista. No papel do protagonista, Timothy Spall (Um ator inglês de primeira categoria que é só conhecido pela maioria do público, infelizmente, pelo seu papel na saga Harry Potter.) faz misérias. Seu Turner é um homem complexo, mas inteiramente humano: possui defeitos, qualidades, maneirismos; apresenta-se como um excêntrico, cuja alta posição social e o sucesso precoce deram liberdade para seguir com sua arte e opinar sobre a arte dos outros; é um artista respeitado pelos seus colegas, mas visto como ultrapassado; tem admiradores fieis, mas uma série de críticos – entre eles, a jovem rainha Vitória, que considera seus trabalhos mais recentes feios. É, inequivocamente, um homem do seu tempo, real e fundado.

 

Focus Features

“A belíssima fotografia destaca-se como a tela de um grande pintor.”

 

Mr. Turner nunca procura justificar as motivações do seu protagonista. Apenas as retrata enquanto segue o seu dia-a-dia: a sua reação à morte do pai (Paul Jesson, encantador no papel.), seu único verdadeiro amigo; sua relação com as filhas bastardas e com os outros membros da Academia; seu envolvimento com sua empregada, Hannah (Dorothy Atkinson), e com uma viúva que ele conhece em Margate, Sra. Booth (Marion Bailey). O elenco coadjuvante, enorme, desempenha seu papel com segurança.

Isso demonstra o primoroso trabalho de direção de Leigh, um cineasta como poucos. Ele conduz o filme com mão segura, extraindo o melhor de seus atores e infundindo o filme com um perfeito clima pitoresco, tipicamente vitoriano. É incrível a atenção de Leigh aos detalhes e eles fazem toda a diferença em um filme biográfico – os personagens envelhecem gradualmente, o que dá mais credibilidade à passagem do tempo. Além disso, é importante destacar a fotografia impecável do filme; imagens belíssimas de paisagens que parecem complementar as telas de Turner.

Apesar de seus grandes méritos, o filme não passa sem falhas: o roteiro é excessivamente polido, o que dá uma artificialidade aos diálogos (Isso é desnecessário; Spall consegue emocionar mais com seus grunhidos do que com suas falas.); além disso, alguns personagens ficaram excessivamente caricatos. É o caso de Haydon (Martin Savage) – pintor fracassado e invejoso à la Salieri em Amadeus – e Ruskin (Joshua McGuire) – crítico mimado que adora os quadros de Turner.

No final, a impressão que fica é que a maioria do público talvez não consiga apreciar o filme como ele deveria ser. O próprio Leigh talvez perceba isso, traçando um paralelo entre sua obra e a de seu protagonista, também desprezada em seu tempo. É uma pena. Como pinturas de grandes mestres, este filme pertence à história.

Sobre o Autor

Daniel Lomba
Um entusiasta de cultura em todas as suas formas.

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