Perdido em Marte – Crítica

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Crônicas Marcianas

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Direção: Ridley Scott

Elenco: Matt Damon, Jessica Chastain, Kristen Wiig, Chiwetel Ejiofor

Nota: 3 de 5 estrelas

Olhe para o céu, infinitos planetas aparecerão. Bem, talvez não seja possível vê-los propriamente; mas contemple as inúmeras estrelas da noite e imagine que em volta de cada uma delas podem estar espalhados dezenas e dezenas de planetas. O infinito ainda não está grande o suficiente? Então, imagine que cada um desses planetas é o centro de seu próprio universo e que dele podem ser vistos uma infinidade de estrelas—outras estrelas; estrelas cuja as luzes talvez ainda não tenham chegado à Terra. E, novamente, em volta de cada uma dessas novas estrelas, novos planetas. Um infinito de infinitos, infinitamente crescendo até o infinito.

Porém, de todo esse sem-número de planetas, nenhum causou tanta fascinação quanto o nosso vizinho, Marte. O planeta vermelho permeia o imaginário popular há séculos, sendo tema de incontáveis autores, como H.G. Wells e Ray Bradbury—alguns dos meus favoritos. Eles povoaram Marte com os mais diversos e estranhos seres, criaram mundos incríveis, tão distantes e impossíveis, mas, ao mesmo tempo, tão próximos do nosso próprio mundo. No espaço havia a beleza do não-saber: Marte poderia ser tudo e lá tudo poderia acontecer. Vemos que, para o infinito, às vezes apenas um planeta vermelho basta.

O mais novo integrante desse panteão literário é o californiano Andy Weir, autor do best-seller Perdido em Marte. A história pessoal de Weir é quase tão interessante quanto o seu livro: formado em ciência da computação, o americano pesquisou durante anos para escrever um livro que fosse o mais fiel possível à realidade, baseando-se em tecnologia já existente; o livro foi rejeitado pelas grandes editoras inicialmente, o que obrigou Weir a publicá-lo independentemente em seu blog e na Amazon; após o sucesso estrondoso do livro, ele foi publicado tradicionalmente e teve seus direitos de adaptação cinematográfica vendidos por um alto preço.

Essa adaptação chegou aos cinemas brasileiros recentemente. Dirigido por Ridley Scott e estrelando Matt Damon e—como diria um locutor de filme brasileiro—grande elenco, Perdido em Marte conta a história do astronauta Mark Watney (Damon) que, após ser dado por morto durante uma tempestade de areia durante uma missão em Marte, é abandonado no planeta vermelho sozinho, sem meios de se comunicar com a Terra. O filme é uma história de sobrevivência: Watney precisou aprender a plantar comida em um planeta inóspito e a entrar em contato com a NASA para achar uma maneira de voltar para casa.

O sucesso do livro de Weir e do filme de Scott mostra, sem dúvida, uma mudança em termos de ficção-científica. Saem os seres estranhos e as fantasias de Wells, Bradbury e Burroughs e entra a boa-e-velha ciência. Não há mais espaço para a imaginação; nós agora conhecemos intimamente Marte e sabemos o que é fato e o que é meramente ficção. Agora, a NASA até sabe que existe água em Marte, uma descoberta incrível—e divulgada de forma incrivelmente conveniente para casar com a estreia de Perdido em Marte, mostrando que os americanos ainda são imbatíveis quando o assunto é capitalismo—, mas uma descoberta que, mais uma vez, retira o ar sedutor de mistério que possibilitava os infinitos mundos do planeta vermelho.

Não me entenda mal, não estou contra a ciência; mas Perdido em Marte não parece ciência, pelo menos não verdadeiramente. O filme parece mais um I-fucking-love-science, algo que desesperadamente quer mostrar não o estudo de ciência, mas sim o quão divertido ciência pode ser. Watney mais parece um blogueiro que fica o tempo todo apontando e falando ‘olha só gente, como isso é legal, porque ciência’.

Não que Perdido em Marte não tenha o seus méritos: focar o início do filme quase exclusivamente em Watney é algo poderoso e Damon procura fazer o máximo possível com o papel. Porém o filme parece não querer focar muito nas consequências da solidão de seu protagonista e Watney pouco a pouco perde espaço para os cientistas e diretores da NASA, que gastam horas e horas discutindo sobre como poderão trazer o astronauta de volta para a Terra. O elenco é excepcional e todos estão bem, mas a quantidade de caras conhecidas tira um pouco o brilho do filme, que deveria ser sobre um único homem perdido em um planeta, mas fica parecendo uma festa com alguns convidados a mais.

O erro seria de Scott, o diretor do filme? Possivelmente. Perdido em Marte é uma das melhores obras do cineasta em anos, mas mesmo assim possui todos os vícios típicos do diretor. Scott sempre cometeu o erro de tentar muito quando não era necessário. Seus filmes pecam pelo exagero de cenário, de história, de significados; de tudo, basicamente. Isso invariavelmente acaba atrapalhando o desenvolvimento do roteiro, que parece artificialmente forçado pelos desígnios de Scott, transformando-se de algo cândido em algo com ares megalomaníacos. Não por acaso, seus melhores filmes—todos do início de sua carreira, diga-se de passagem—são aqueles mais simples (como Alien e Os Duelistas) ou aqueles em que o excesso favorece organicamente a história (como Blade Runner).

A coisa mais desapontante em Perdido em Marte, talvez, seja o seu potencial desperdiçado. Quando Watney se vê sozinho e abandonado em um planeta desconhecido é aterrorizante, mas ele não desiste e luta pela sua vida. Esses bons momentos—que lembram bastante Gravidade, um filme tematicamente bem similar—são espetaculares e valeriam o ingresso. Infelizmente, para Scott, Watney e Marte não são o suficiente. Mantendo-se com uma boa parte da ação na Terra, o diretor acaba perdendo o filme entre as estrelas.

Sobre o Autor

Daniel Lomba
Um entusiasta de cultura em todas as suas formas.

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