Os Oito Odiados – Crítica

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Tempos de Brutalidade

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Direção: Quentin Tarantino

Elenco: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Bruce Dern

Roteiro: Quentin Tarantino


Nota: 3,5 de 5 estrelas


A violência marca: são poucas as pessoas que, após sofrerem algum tipo de violência pessoal, não sejam acometidas por um sentimento bruto de vingança; contra aqueles que lhe causaram o sofrimento, contra a sociedade que aquiesce, contra o próprio mundo que permite que tal mal aconteça. Justiça vigilante, a forma mais satisfatória de resolver um mal cometido: longe da imparcialidade do tribunal, longe dos ditames formais da lei, longe da burocracia da magistratura, longe da frieza e da racionalidade de quem não sofreu a ofensa, de quem não entende verdadeiramente, quem nunca compreenderá a raiva. Justiça vigilante é quente, é emocional e, exatamente por isso, mexe com algo puramente selvagem dentro de nós. Mas justiça vigilante tem um problema, algo que deturpa ela de tal modo que qualquer ser empático ficaria de cabelo em pé só de imaginar as consequências: ela pode estar tanto certa quanto errada.

Esse é um risco que Quentin Tarantino está disposto a tomar—pelo menos em seus filmes. Não há tribunal que tenha vez em suas obras; se seus personagens desejam reparar uma injustiça eles devem sujar as próprias mãos. Geralmente essa sujeira envolve sangue; muito sangue. Os Oito Odiados—o oitavo filme de Tarantino—não foge da fórmula. Aliás, o filme parece ir um passo à frente e apresenta um festival de gore que não é visto desde Pulp Fiction—e, considerando os filmes de Tarantino, em que gore é o que geralmente não falta, essa afirmação diz muita coisa.

Em Os Oito Odiados, Tarantino continua sua imensa tradição de rir da violência. Suas cenas de matança são, acima de tudo, extremamente engraçadas. O diretor não tem medo de abraçar o trash, mesmo que seja um trash de alto nível. Fazendo referências aos seus ídolos de infância, Tarantino transforma o tosco em algo quase chique, algo requintado e apreciável.

O filme conta a história de John ‘O Carrasco’ Ruth (Kurt Russell), que caçador de recompensas nos EUA do século XIX que ganhou fama por trazer seus prisioneiros vivos para serem enforcados em praça pública. Ele estava justamente transportando uma criminosa chamada Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) quando um nevasca obriga ele e seus companheiros de viagem—que também incluem o Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e o xerife Chris Mannix (Walton Goggins)—a pararem em uma pensão. Lá, alguma coisa estranha parece estar acontecendo e a noite não irá terminar antes que muito sangue seja derramado.

É interessante ver a maneira como Tarantino estrutura seus filmes: cenas longuíssimas, recheadas de diálogos—fantásticos, na maiorias das vezes—são intercaladas com cenas de uma brutalidade animal. O diretor é um mestre em trabalhar simultaneamente com a palavra e com a imagem, sabendo precisamente dosar os dois de modo que um nunca sobreponha o outro. Em Os Oito Odiados, o diretor parece perder um pouco a mão; o filme tem um aspecto estranho, irregular, como se faltasse algo. Tarantino parece recorrer demais às palavras em certos momentos, o que aproxima muito o filme de um livro—e, de certa maneira, Os Oito Odiados figuraria bem na bibliografia de um autor como Charles Portis ou Cormac McCarthy. Em outros momentos, o filme assume o ritmo e a dinâmica de uma peça de teatro. É bem provável que isso tenha sido intencional; Tarantino é um conhecido defensor da experiência cinematográfica, fazendo questão de filmar e exibir seu filme em 70 mm, e poderia, muito bem, ter colocado na cabeça que Os Oito Odiados deveria ser experimentado e não apenas assistido.

Essas questões não detraem tanto do filme, mas o tornam curioso. Em sua ânsia por ser muita coisa, Os Oito Odiados acaba não sendo nada muito bem. Não acho que um filme necessariamente precise seguir uma estrutura de história tradicional para ser bom; inclusive, muito pelo contrário, como o próprio Tarantino já provou incontáveis vezes. Mas o maior problema com Os Oito Odiados é que, sobretudo, ele é possivelmente o filme mais odioso do diretor. A raiva de Tarantino é tão evidente que torna o filme, em momentos, desconfortável de se assistir. O diretor sempre foi um mestre em contrapor a sutileza de seu roteiro com a incrível brutalidade de sua direção. As imagens eram vulgares, mas as palavras sempre guardavam algo profundo, quase imperceptível, mas dotadas de significado. Em Os Oito Odiados, Tarantino pega o seu roteiro e explode a sua cabeça em um banho rubro, sem dó nem piedade. A sutileza ficou para trás.

Sobre o Autor

Daniel Lomba
Um entusiasta de cultura em todas as suas formas.

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