|Opinião| O Discurso de Streep e La La Land

Quando Meryl Streep subiu ao palco do Globo de Ouro para receber o prestigioso prêmio Cecil B. DeMille, eu sabia que estava para ver uma grande performance. E com um currículo invejável—que inclui dezenove indicações ao Oscar, com três vitórias, e vinte e nove indicações ao próprio Globo de Ouro, com oito vitórias—, não há ninguém melhor do que Streep para nos presentear com uma grande performance. Foi o que ela fez desde o começo, em que chegou com voz rouca e, com muitíssima humildade, se desculpou pela sua memória e a necessidade de ler o seu discurso—que, diga-se de passagem, ela prontamente dispensou e não tornou a olhar pelo restante da noite—, uma brilhante admissão de fraqueza que serviu para capturar imediatamente a simpatia do público; depois ela teceu cuidadosamente elogios a diversos dos presentes, como uma fada ou uma rainha que te abençoa e te eleva pelo simples reconhecimento de tua existência, e construiu sua narrativa com todo o cuidado de um roteirista experiente, em um crescente alucinado que culminou com uma defesa fervorosa da importância da arte—da arte hollywoodiana em especial—e finalizou com uma singela e doce homenagem póstuma. Foi uma belíssima encenação, a atriz se retirou de cena e o público aplaudiu fervorosamente.

Esse é um discurso bem padrão, certo? O tipo de discurso que é costumeiro nessas cerimônias; algo para ser ouvido, aplaudido levemente e esquecido. Mas não foi isso que aconteceu este ano. Este ano o discurso reverberou com grande intensidade. Parte disso foi certamente devido à resposta vergonhosa de Trump no dia seguinte. Mas outra parte—uma parte muito importante—dessa reverberação potente se deve ao fato da fala de Streep não estar isolada; ela não é um evento pequeno e sem importância dentro de uma premiação pequena e sem importância. Ela faz parte de uma narrativa maior; é apenas mais um pedaço de uma guerra extensa e complicada. Streep se coloca como um Abraham Lincoln ou um George Washington moderno, discursando para suas tropas, criando a moral necessária para se preparar a enfrentar o poderoso e temido adversário. A fala de Streep não é uma simples fala. Ela é um grandioso marco na história hollywoodiana.

E se pensarmos bem, toda essa repercussão não deveria ser surpreendente. Afinal, não há nada que Hollywood ame mais do que exaltar a si mesma. É basicamente para isso que servem essa miríade de premiações: uma lembrança anual do quanto Hollywood é boa e importante. A indústria de cinema americana é uma eterna narcisista e ela não tem o menor pudor de admitir isso. Quero dizer, O Artista ganhou um Oscar de Melhor Filme. Quer maior prova do que essa de que Hollywood se ama incondicionalmente? E este ano, mais do que nunca, é necessário cultivar esse amor-próprio.

Desde a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, a grande narrativa formada é de que os liberais—e, em especial, os artistas milionários da maior indústria de entretenimento do mundo—estão sendo perseguidos. Até Streep mencionou isso em seu discurso: que não havia classe mais perseguida no país atualmente do que os artistas de Hollywood—e todos os presente concordaram sem pestanejar enquanto bebericavam suas taças de Moët & Chandon. Mas a questão vai ainda além disso: Hollywood se sente pessoalmente agredida em sua vaidade no momento, e grita acuada como se ela estivesse constantemente sob os mais pesados ataques inimigos.

É, portanto, totalmente natural que La La Land desponte como o grande favorito dessa temporada de premiações. É completamente compreensível que ele quebre o recorde do Globo de Ouro, acumulando sete troféus, dominando a noite e ganhando todos os prêmios a que concorria. Eu não esperaria outra coisa: La La Land é, acima de tudo, um filme que exalta a importância de Hollywood. É um filme que no lugar de alma, decide encantar e impressionar pelo espetáculo do romantismo cinematográfico. Um filme sem coração, mas com belos olhos; olhos nos quais você pode se perder e que iluminam tudo aquilo que você mais ama no cinema, sua verdadeira razão de existência. Não é à toa que o filme seja definido como para os sonhadores; ele incorpora a própria ideia do que Hollywood é: uma terra de sonhos, sem compromissos com a realidade, onde tudo é possível. É óbvio que a Academia irá privilegiar um filme como La La Land, que abraça a mitologia de Hollywood com tanta força que sua homenagem toma ares de devoção; o favoritismo do filme é a justificativa de Hollywood, o seu atestado de significância.

Enquanto Streep e La La Land continuam alimentando fielmente o ego de Hollywood, ela vai retribuindo-lhes como uma amante lisonjeada. Tudo isso não é apenas cansativo—em momentos, é absolutamente irritante. Por mais quanto tempo teremos que ouvir a incessantes lamúrias de Hollywood? Seu discurso orgulhoso de como é desprezada pela América, mesmo quando consegue bater recordes de arrecadação na bilheteria? Sua tendência a colocar-se como marginal, sempre na vanguarda e à frente do tempo, mesmo quando ela ainda é extremamente elitista e segregacionista? No fundo, o discurso de Streep é uma prova concreta do poder que Hollywood tem de assimilar ideologias e revendê-las ao público. E ainda receber aplausos por isso.

Sobre o Autor

Daniel Lomba
Um entusiasta de cultura em todas as suas formas.

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