O Que os Filmes do Oscar Têm em Comum? (Sem Spoilers)

 

Filmes do Oscar

Os indicados à estatueta de maior prestígio da sétima arte são uma pista sobre os assuntos principais do Zeitgeist daquele momento histórico. Por isso, é interessante analisar o fio comum que une alguns dos maiores competidores e ganhadores de estatuetas a cada ano. A julgar por Birdman, Whiplash, Sniper Americano e O Jogo da Imitação (e até mesmo por outros, como A Teoria de Tudo), esse foi o ano dos workaholics.

O Jogo da Imitação é baseado na vida do analista de criptologia Alan Turing, que, ao desenvolver um sistema durante a Segunda Guerra Mundial para quebrar o código através do qual nazistas se comunicavam, gerou a base para os computadores modernos. Porém, a maior máquina de Turing parece ser ele mesmo, já que, como todo bom gênio, não consegue lidar bem com outros seres humanos, inclusive por causa de uma dolorosa perda em seu passado. Ele basicamente trabalha sua vida inteira para ajudar a salvar uma civilização que sistematicamente o exclui. Depois de interpretar Sherlock Holmes na TV britânica, Benedict Cumberbatch faz jus a mais um gênio nesse projeto, que foi vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Apesar de ser um bom filme, há alguns pontos de virada mal trabalhados. É por isso que esse prêmio deveria ter ido para o próximo workaholic na lista.

Whiplash é sobre até onde a paixão pela nossa profissão pode nos levar. O filme conta a árdua trajetória de um jovem estudante de música que quer se tornar um baterista de jazz extraordinário e que, para isso, terá que lidar com um professor extremamente exigente e de métodos “motivacionais” altamente questionáveis. Pode parecer uma história simples, mas trata-se de uma narrativa de enorme dificuldade técnica e temática, as quais o filme consegue resolver com vigor impressionante. Miles Teller, que interpreta o pupilo, e J.K. Simmons, que merecidamente levou a estatueta de Melhor Ator Coadjuvante como o mestre, fazem uma das duplas mais efervescentes que já presenciei na tela. Miles já havia aprendido a tocar bateria de modo auto-didata, mas teve treinamento para o papel para aprender a tocar especificamente para jazz. O sangue e o suor, tanto o que vem de dentro da história quanto o da equipe (para realizar um filme tão bem escrito, pensado, fotografado, dirigido, atuado e editado), ficam estampados na tela, mas as lágrimas ficam por conta de quem assiste. Não é à toa que esse emocionante feito cinematográfico levou ainda o Oscar em duas categorias técnicas: Melhor Edição de Imagem e Melhor Mixagem de Som. Esse é o único da lista que vai fazer você literalmente perder o fôlego. O próximo filme elencado aqui deveria fazer exatamente o mesmo, mas falha nessa tarefa.

Sniper Americano é mais um biopic, baseado na autobiografia que conta a vida e “obra” de Chris Kyle, o atirador de elite mais mortal da história das forças armadas norte-americanas. A primeira meia hora de filme é uma colcha de retalhos sobre a infância e juventude do soldado, que não nos situa a ponto de criarmos uma conexão emocional com o protagonista. Um dos superiores de Kyle diz a ele que “a guerra será ganha quando conseguirem quebrar mentalmente o inimigo” e é exatamente esse o elemento que falta ao filme. Kyle não se questiona sobre os motivos da guerra nem sobre as consequências de seus atos e, na grande maioria dos momentos, seu conflito interno é inexistente ou incipiente. Sem esse ingrediente essencial para qualquer filme de guerra fugir da obviedade, todas as ações viram simplesmente um exercício estético, mas não ético. Se não nos conectamos nem emocionalmente nem intelectualmente com o personagem, nenhuma das cenas de tensão surtem efeito e o filme como um todo cai por terra. A forma é tecnicamente perfeita, mas o filme de Clint Eastwood peca na bidimensionalidade emocional e político-ideológica, faltando aqui uma conexão com o contexto de um mundo maior, onde nada é preto e branco. Há pontos que não entram em discussão, até porque é complexo retratar a vida de um SEAL que se questiona sobre a legitimidade da guerra ao terror, ainda mais se tratando de um filme sobre uma figura real. O papel principal é interpretado por um competente e preparado Bradley Cooper, que foi indicado a melhor ator e também atuou como produtor, mas não consegue salvar o filme como um todo. Entretanto, os números arrebatadores da bilheteria do filme que levou o Oscar de Melhor Edição de Som indicam que a sua história está perto de um realidade ainda dolorosa para os norte-americanos e que eles pagam bom dinheiro para vê-la sendo expurgada nas telas de cinema.

E a questão de expurgar monstros do passado nos leva ao grande ganhador desse ano, Birdman. O vencedor de vários dos principais prêmios da noite, tendo levado os Oscars de Roteiro Original, Fotografia, Direção e Filme, fica bem longe dos números de bilheteria do filme anterior dessa lista, mas fica muito na frente na quantidade de camadas que a narrativa explora. A história é sobre um ator de Hollywood que, depois de ter interpretado um superherói na telona, quer fazer sua épica volta ao showbiz através de uma peça da Broadway para finalmente passar ser respeitado como artista. A peça que é ensaiada e encenada no filme se relaciona diretamente com a história dos atores que a interpretam, fazendo uma estrutura interessante de mise-en-abyme. A partir do espelho entre uma história e outra, o filme estabelece a tênue separação entre ficção e realidade. Mas a relação entre essas duas instâncias mais similares do que julgamos não fica só dentro do filme, mas também pode ser estabelecida entre ele e o próprio “mundo real”. Afinal, não é à toa que quem interpreta o papel principal é Michael Keaton, que vive até hoje sob a sombra do papel do Homem Morcego. Porém, nada disso chamaria tanto a atenção se não fosse a fotografia, que consegue o complexo feito de fazer o filme inteiro parecer um plano contínuo, o que dá ao espectador tanto a impressão de estar vendo uma peça de teatro quanto de estar vendo a vida real. Isso reforça a ambiguidade central ao tema do filme, até que o último plano nos desperta para o fato de que estamos vendo ficção. Apesar de ter gostado de A Invenção de Hugo Cabret e O Artista, Birdman é o filme metalinguístico mais interessante que vi recentemente (não esqueçamos de Oito e Meio, que é genial e incomparável).

Por esses e outros filmes, podemos dizer que o Oscar desse ano mostrou mesmo que “o trabalho dignifica o homem”. Sim, o homem, porque não há nenhum personagem feminino nessa lista. E digo mais – o homem branco, pois não há nenhum negro no papel principal dos filmes aqui citados. Selma, o único no Oscar de 2015 a sustentar a causa negra nos EUA, saiu somente com o prêmio de Melhor Canção para “Glory”, apresentada no número musical mais emocionante da cerimônia por John Legend e Common, acompanhados por um  coro. O discurso da dupla e de outros vencedores defenderam igualdade de direitos dos negros, das mulheres, dos imigrantes e daqueles com algum tipo de doença ou deficiência. Isso fez com que o Oscar desse ano mostrasse não só alguns dos maiores workaholics que já vi, mas também algumas das maiores críticas não só para com a indústria cinematográfica em si, mas também para com a própria sociedade em que os prêmios estão inseridos.

Sobre o Autor

Anna Israel
Formada em Comunicação Social – Cinema pela PUC-Rio, tive a sorte de fazer intercâmbios para a UCLA, NYU e Cornell nos EUA, de conhecer alguns dos meus grandes ídolos e de ganhar prêmios com meus trabalhos. Para viver, só preciso de cinema, TV e música. Mas boas horas de sono e chocolate também vêm a calhar.

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