O Bom Gigante Amigo – Crítica

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Um Gigante Pequeno

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Direção: Steven Spielberg

Elenco: Mark Rylance, Ruby Barnhill, Penelope Wilton

Roteiro: Melissa Mathison


Nota: 2.5 de 5 estrelas


Poucos diretores conseguem se vangloriar de uma carreira tão bem-sucedida e eclética quanto Steven Spielberg: abrangendo desde blockbusters puramente comerciais a filmes reflexivos e emocionantes voltados especificamente para premiações, a filmografia do diretor tem um pouco de tudo. Spielberg conseguiu um bom equilíbrio entre ser um diretor respeitado pela crítica e ser um diretor que atrai um grande público para o cinema; seus filmes se alternam entre uma magia fantasiosa e quase infantil e uma realidade dura, severa e bem adulta. Nesse sentido, Spielberg poderia ser classificado como um Dickens moderno: um mestre contador de histórias, com um talento para trazer toda a magia e toda a realidade do mundano.

O problema é que, como Dickens, Spielberg pode tender a ser um pouco moralista demais e excessivamente sentimental. Especialmente quando o diretor trabalha com crianças que, assim como o escritor inglês, ele vê como um símbolo de esperança e de inocência, mas, ao mesmo tempo, como figuras fortes, cheias de resiliência e um otimismo inabalável. É engraçado perceber que essa relação sentimentalista com crianças se mantém mesmo em filmes em que elas não são as protagonistas e têm pouco a ver com o cerne da história—como é o caso da menina de rosa em A Lista de Schindler ou da Dakota Fanning em A Guerra dos Mundos.

Nos últimos anos, o Spielberg se afastou um pouco do universo infantil, se focando mais em histórias adultas. Mas em O Bom Gigante Amigo, o diretor volta a colocar uma criança como heroína pela primeira vez desde Inteligência Artificial e busca recapturar com isso um pouco da fantasia infantil de alguns de seus filmes mais antigos. Infelizmente, o resultado acaba desembocando mais para uma infantilidade fantástica.

Baseado no livro de Roald Dahl—um autor cuja obra já nos presenteou com clássicos do cinema como A Fantástica Fábrica de Chocolate, Matilda, O Fantástico Sr. Raposo e, meu favorito, James e o Pêssego Gigante—, O Bom Gigante Amigo (ou BGA para os íntimos) conta a história de Sophie (Ruby Barnhill), uma órfã infeliz que, após presenciar as perambulações noturnas de um amigável gigante, é arrastada para a Terra dos Gigantes. Lá, ela decide ajudar seu novo amigo gigantesco a se livrar dos outros gigantes, criaturas más e vis que o destratam e comem crianças.

A história de O Bom Gigante Amigo é bem simples e contém quase todos os clichês de Dahl: crianças órfãs, pobres e infelizes que encontram benfeitores excêntricos que as resgatam de sua vida medíocre; vilões terríveis que abusam sua forças e seu poder sobre criaturas mais indefesas. Para adaptar a história de Dahl, Spielberg escalou Melissa Mathison, a roteirista que já havia trabalhado com o diretor em um de seus clássicos mais duradouros, E.T. – O Extraterreste, e Mark Rylance, o ator que havia acabado de trabalhar com o diretor em seu sucesso mais recente, A Ponte dos Espiões. Com esses dois nomes ao seu lado, Spielberg certamente se sentiria seguro de um sucesso automático. Mas não foi bem o que aconteceu.

Em primeiro lugar, é preciso dizer que todo e qualquer charme que Mathison e Spielberg conseguiram em E.T. é sufocado em BGA sob uma montanha de efeitos caros e sentimentalismo barato. Spielberg sempre foi um diretor criativo, capaz de pensar em soluções inteligentes para lidar com limitações tecnológicas. Porém, sua fama e seu renome trouxeram a ele recursos ilimitados e ele decidiu abraçar isso com todo o fervor de uma criança com um brinquedo novo. Ao mesmo tempo, à medida que o espetáculo visual se tornava mais refinado, as emoções se tornavam mais brutas; Spielberg começou a trocar sutileza por obviedade e profundidade por superficialidade.

O filme possui seus momentos: o começo é promissor e a cena em que BGA e Sophie capturam sonhos na floresta é de uma beleza misteriosa e fascinante. Além disso, Rylance encanta como o gigante titular, mostrando vulnerabilidade e ternura. Porém, O Bom Gigante Amigo não consegue se sustentar mais do que alguns passos. Superando o truque visual, o filme desmorona e se demonstra algo sem vida e sem coração. Qualquer tipo de mensagem significativa é abafada por piadas de peidos que provavelmente só irão agradar as crianças mais pequenas; cenas longas que não significam nada tiram o espaço de outras cenas que poderiam ajudar a construir o filme e dar a ele algum tipo de significado. A mensagem final é apresentada de uma maneira tão breve e bagunçada que parece mais uma reflexão tardia, colocada no final só para tentar justificar o filme. Na direção, Spielberg parece desconfortável—algo raro no diretor—e isso acaba transparecendo no produto final: O Bom Gigante Amigo pode até possuir gigantescos efeitos, mas, no fundo, é um filme bem pequeno.

Sobre o Autor

Daniel Lomba
Um entusiasta de cultura em todas as suas formas.

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