Moonlight: Sob a Luz do Luar – Crítica

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Azul é a Cor mais Quente

Direção: Barry Jenkins

Elenco: Trevante Rhodes, André Holland, Naomie Harris, Mahershala Ali

Roteiro: Barry Jenkins

Não é fácil ser azul. E é ainda pior ser azul quando você deseja desesperadamente ser outra coisa—ser, por exemplo, negro; ser a verdadeira representação da majestade negra, entrando em um gueto na periferia de Miami, de carro, tal como um rei entrando de carruagem em seu reino. É horrível quando as pessoas te chamam de azul; quando elas não te veem como nada além de azul. Sob a luz do luar, as nossas cores se mostram—é muito triste ser azul.

Existe, inegavelmente, uma grande tristeza em Moonlight: Sob a Luz do Luar. E não é para menos: o filme conta a história de um jovem garoto negro crescendo e descobrindo sua sexualidade em Liberty City, um dos bairros marginalizados de Miami. Atormentado por colegas de classe e valentões de escola, Chiron (Alex Hibbert/Ashton Sanders/Trevante Rhodes, nas três fases diferentes do filme) ainda precisa lidar com uma mãe viciada em crack (Naomie Harris) e com sua atração crescente pelo melhor amigo, Kevin (Jaden Piner/Jharrel Jerome/André Holland). Perdido e sem caminho, o pequeno Chiron encontra apoio em Juan (Mahershala Ali), um traficante cubano da área que resolve cuidar dele e guiá-lo.

O grande mérito de Moonlight está em sua originalidade delicada: o filme constantemente surpreende o espectador com caminhos inesperados. Grande parte das decisões criativas de Barry Jenkins, o diretor, não são óbvias—em momentos, sua direção assume ares que poderiam ser chamados de esquizofrênicos: a movimentação de câmera varia muito de cena para cena; o desenvolvimento dos três atos é feito de maneira truncada e, até de certa forma, independente um do outro; o esquema de cores é intenso demais—, mas todas essas escolhas não-óbvias de direção se encaixam tão bem que elas, de alguma forma, em toda a sua complexidade, transformam o aspecto geral do filme, dando a ele uma característica demasiadamente viva. Moonlight é um filme que respira. Ele é uma poesia visual que parece estar sendo improvisada por um gênio das palavras e das imagens. O fato do filme não ser improvisado—de ser, inclusive, muito bem pensado por Jenkins—não muda o efeito final: Moonlight aproxima o espectador pela sua crueza e torna-o parte do processo.

E justamente essa aproximação é importantíssima: Moonlight é um filme que trata, principalmente, da importância da empatia; de como nossas atitudes afetam aqueles que estão à nossa volta e como pequenos gestos de bondade e de carinho são, às vezes, tudo que a pessoa precisa para ser salva e redimida. Chiron é uma criança confusa e assustada com sua própria sexualidade dentro de um ambiente homofóbico e violento. Sua relação com Juan, o traficante-rei, com sua touquinha no lugar de coroa, dá a Chiron a base que ele necessita no momento que ele mais a necessita. Jenkins constrói a relação de Chiron e Juan de maneira singular: para o traficante, a bondade que ele oferece ao garoto nunca ganha contornos de redenção de caráter; Juan não se arrepende de suas escolhas de vida ou lamenta o destino que o levou à criminalidade. Mas ao identificar em Chiron algo de si mesmo, Juan sente que ajudá-lo é uma necessidade. Com uma sensibilidade e um desprendimento raro em muito atores, Ali percebe que a força de seu personagem não está em sua presença, mas em sua ausência. Seu trabalho em Moonlight é verdadeiramente impressionante: é uma performance que impacta pela brevidade e ressoa em todos os momentos em que não está presente; tal qual Juan, o poder de Ali só é realmente sentido quando ele já não está mais lá.

Do outro lado da vida de Chiron ergue-se Paula, sua mãe. Diferentemente de Juan, que se entrega ao menino, Paula suga-o: viciada em crack, ela não dá atenção à criança e, quando dá, é apenas para destratá-lo violentamente. Diferentemente de Juan, Paula é uma força presente—isso torna, talvez, o trabalho de Harris mais fácil do que o de Ali; mas, mesmo assim, a atriz impressiona. Como Chiron, Paula também é uma figura em busca de redenção; em busca de algo ou alguém que a irá salvar. O que Harris faz é embutir Paula, em diferentes momentos do filme, com diferentes formas de desespero e decadência. Em todas as suas cenas, Harris possui no olhar a inquietação dos extremamente necessitados—mas o mais fascinante é que essa própria inquietação muda de forma ao decorrer do filme. É o mesmo tipo de sentimento, mas, em cada fase, ele provém de diferentes lugares. Nas mãos de uma atriz ou de um diretor menos capaz, isso seria um desastre. Que Jenkins e Harris conseguem se sair bem é uma grande prova do talento de ambos.

E, é claro, há ainda a relação de Chiron com Kevin, seu amigo de infância. A relação entre ambos é a mais complexa do filme e a mais difícil de classificar em termos claros: Kevin é, ao mesmo tempo, a salvação e a danação de Chiron. Ele vê no amigo tudo aquilo que desejaria ter e tudo aquilo que desejaria rejeitar. O desenvolvimento deles durante as três fases do filme ilustra, principalmente, que os lugares onde os atos de carinho são os mais necessários também são os lugares onde os atos de violência marcam mais.

Como roteirista e diretor, Jenkins está em total controle do poder de sua narrativa. A crueza bruta e, ao mesmo tempo, o refinamento sutil que ele consegue imprimir em Moonlight é algo comparável aos melhores trabalhos dos melhores diretores. Jenkins usa seus atores e seu cenário de forma plena, transformando a pele negra em uma espécie de tela onde ele consegue pintar com suas cores intensas: a fotografia é hipnotizante e a trilha é genial pela sua urgência emocional. O diretor conduz o filme de forma totalmente orgânica, subvertendo questões de sexualidade e raça com uma destreza impressionante e sempre segura de si. Pois se Chiron passa o filme inteiro buscando uma identidade para si mesmo, Moonlight, desde o primeiro momento, sabe muito bem quem é e tem orgulho disso. Existe grande beleza em ser azul, no final das contas.

Sobre o Autor

Daniel Lomba
Um entusiasta de cultura em todas as suas formas.

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