Jackie – Crítica

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Camelot

Direção: Pablo Larraín

Elenco: Natalie Portman, Peter Sarsgaard, Billy Crudup, John Hurt

Roteiro: Noah Oppenheim

Se houve alguma família que mais próxima esteve da realeza nos Estados Unidos, essa família foi a Kennedy. E Jacqueline Kennedy Onassis foi sua própria princesa-consorte, a verdadeira figura da beleza e elegância; uma mulher cuja simples menção do nome já trazia imagens de sofisticação e refinamento. Mulheres tendem a ser reduzidas assim: enquanto homens ordinários são exaltados por seus feitos extraordinários, elas são eternamente preservadas como belos apoios à margem da história.

Mas mulheres ordinárias também podem realizar feitos extraordinários. Mais do que um símbolo de elegância e porte, Jacqueline Kennedy Onassis foi uma mulher real que precisou enfrentar problemas quase inacreditáveis: o assassinato de seu marido, um dos homens mais poderosos do mundo, ao seu lado, na frente de toda a sociedade; a reação da mídia e a preservação do legado dele como presidente; a mudança repentina de uma casa que nunca pertenceu a ela, mas que ela já havia se acostumado a chamar de lar; os filhos pequenos—uma preocupação e um encargo sempre relegados à mulher—e o luto de uma família e de uma nação. Essa Jacqueline não foi uma figura de sofisticação, sempre impecavelmente vestida e arrumada; essa Jacqueline sujou as suas mãos e seu vestido de sangue e mesmo assim foi à luta contra múltiplos inimigos—e contra um inimigo em específico, um poderoso e temível adversário: a história e como ela julgaria sua família.

É essa mulher que o incrível diretor Pablo Larraín—de O Clube, No e Neruda—e o roteirista Noah Oppenheim querem mostrar em Jackie. Pegando o período imediatamente após o assassinato de John F. Kennedy, o filme acompanha a primeira-dama enquanto ela precisa lidar com todos os problemas e, ainda, manter a pose perante toda a nação. Ao mesmo tempo, o filme nos presenteia com uma Jacqueline incrivelmente real, desarmada de todas as regras de etiqueta e, mesmo assim, sempre consciente de que papel precisa interpretar para a mídia. As cenas da entrevista de Jacqueline para um repórter (Billy Crudup) e de suas conversas com um padre (John Hurt) nos mostram uma mulher fragilizada, mas ciente da necessidade constante de passar a dose certa de força; uma mulher que não apenas cresceu em um ambiente onde a imagem é tudo, mas abraçou tão completamente essa noção a ponto de se tornar a encarnação física do conceito.

Larraín entende isso perfeitamente: o filme não apenas se preocupa em desmistificar Jackie, mas também, paradoxalmente, em fortalecer sua imagem. Para isso, o diretor é perfeito: ele utiliza com segurança o seu já conhecido recurso de focar a câmera diretamente no ator e de meticulosamente traçar seus movimentos. Tudo, desde a leve virada de Crudup ao sair do carro, parece completamente coreografado por Larraín. E para ajudá-lo a construir seu imaginário, o diretor ainda conta com os impecáveis figurinos de Madeline Fontaine—e, afinal, não poderia ser diferente: em um filme sobre Jackie, figurinos impecáveis são quase obrigatórios—e a incrível e inesperada trilha sonora de Mia Levi, ambos merecidamente indicados ao Oscar. A trilha pesada e, ao mesmo tempo, leve de Levi complementa tão bem as cenas do filme que parecem ter nascido organicamente das imagens. Como se as próprias imagens pudessem cantar, e esse fosse o som de sua voz. É a trilha perfeita para o filme de Larraín, que trabalha sempre tão bem com opostos e paradoxos.

Mas, obviamente, todo o trabalho do diretor não teria tanto impacto se não fosse pela performance de Natalie Portman. A atriz, que geralmente me irrita em algumas de suas escolhas criativas, está muito bem no filme; sua performance é forte e possui uma certa espontaneidade pensada. É estranho imaginar isso, mas Jackie é todo assim: o filme parece ter sido excessivamente pensado para ser natural—o que, é claro, tira grande parte da sua naturalidade. Portman é uma atriz meticulosa e ao se juntar com um diretor meticuloso, como é o caso de Larraín, ela criou um papel que parece agradar pelo esforço empregado na sua construção; e talvez isso ajude a explicar o grande reconhecimento crítico que ela vem obtendo. E, claro, o foco constante no rosto do ator sempre cai bem com a Academia (que o diga Anne Hathaway em Os Miseráveis).

Ao mesmo tempo que a grande força de Jackie está na maneira precisa como ela paradoxalmente tenta desconstruir imagens e criar heróis, esse é o seu ponto fraco. Aliás, nada mais adequado para esse filme do que seu ponto forte ser também seu calcanhar de Aquiles. O problema de se fazer algo extremamente meticuloso é que a sua execução precisa ser perfeita para suprir a falta de emoção. E Jackie pode até ser um filme muito bom, mas não é um filme perfeito: nem todas as suas cenas são bem colocadas, nem todas as suas sequências são bem amarradas. Ao final, você percebe as rachaduras na parede que o diretor tentou esconder com uma camada a mais de reboco e a sensação que dá é que a casa perfeita dos seus sonhos—ou a Camelot encantada da sua infância—pode ruir a qualquer momento.

Sobre o Autor

Daniel Lomba
Um entusiasta de cultura em todas as suas formas.

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