Going Clear – Crítica

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Movendo Montanhas

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Direção: Alex Gibney

Roteiro: Alex Gibney


Nota: 4 de 5 estrelas


Fé é indiscutível; todo pensamento racional e argumento embasado perde sua força sob o peso esmagador da crença. Muitos dos detratores das religiões atacam a absurdidade de suas mirabolantes histórias e a impossibilidade de suas parábolas frente à ciência; esses pobres críticos veem na sua lógica racional o mais poderoso aliado contra os dogmas religiosos e interpretam erroneamente, por consequência, o que, de fato, é a fé. Pois a fé ganha seu vigor justamente em frente a tais contrariedades. Era essa a filosofia de Kierkegaard, que dizia apenas perante o absurdo—inclusive, justamente por causa do absurdo e da resignação infinita—que um homem poderia finalmente dar o salto da fé.

Assim, como criticar a Cientologia? Esse é o desafio de Alex Gibney em seu novo filme Going Clear: Scientology and the Prison of Belief. O diretor não é nenhum estranho a temas polêmicos, já tendo dirigido filmes sobre a tortura americana (Um Táxi para a Escuridão, vencedor do Oscar) e sobre o vazamento de documentos confidenciais (We Steal Secrets: The Story of WikiLeaks), mas Going Clear é, possivelmente, o seu filme mais controverso até o momento. Afinal, não é sempre fácil questionar conceitos como fé e crença, ainda mais frente a uma Igreja com todo o aparato jurídico que a Cientologia possui; e, apesar de hoje em dia a instituição já ter virado um saco de pancada para boa parte do público, a sua influência parece crescer cada vez mais.

Antes de dissecar minunciosamente o cerne da Cientologia, Gibney procura explicar sua origem: a Igreja foi fundada por L. Ron Hubbard, um prolífico escritor de ficção-científica, em 1953, com base no seu livro Dianética – a Ciência Moderna da Saúde Mental. Grande parte dos ditames da religião provém desse livro e de diversos outros conceitos presentes nas histórias anteriores de Hubbard. De acordo com a Cientologia, o cérebro humano é dividido em duas partes: uma parte analítica e uma parte reativa. Qualquer lembrança negativa ou trauma sofrido pela pessoa—nesta e em outras vidas—está armazenada na parte reativa e só poderá ser removida por meio de sessões de auditoria; a remoção desses traumas é o passo necessário para uma vida melhor.

Essa é a base da religião e esses poucos conceitos ajudaram a Cientologia a se expandir e ganhar adeptos durante as décadas de sessenta e setenta. A maioria dos ex-membros entrevistados em Going Clear concorda que as sessões de auditoria eram uma das melhores coisas sobre a religião: em parte psicanálise, elas eram uma espécie de catarse, servindo para liberar os membros dos traumas pessoais que os agrilhoavam.

Se no começo a Cientologia era apenas um culto excêntrico, talvez um pouco exploratório em relação ao trabalho de seus funcionários, mas, de modo geral, inofensivo, as coisas começaram a mudar após a morte de Hubbard e a ascensão de David Miscavige. Going Clear não se preocupa em pintar Hubbard como um crápula oportunista, mas com Miscavige o filme toma um rumo ainda mais pesado: ele apresenta o atual presidente da Cientologia como o próprio demônio. Grande parte da imagem negativa de Miscavige vem, indubitavelmente, dos depoimentos de Marty Rathbun e Mike Rinder, antigos executivos da Igreja que saíram após serem pessoalmente abusados por Miscavige.

Com confissões tão parciais sendo apresentadas, é difícil saber diferenciar o que pode e o que não pode ser visto como fato em Going Clear; mesmo assim, algumas acusações sobre as práticas da Igreja da Cientologia apresentadas no documentário são de assustar: entre elas, o conceito de fair game—que justifica qualquer tipo de ataque sujo dos membros da Igreja contra os detratores—e os dossiês sobre os membros da Igreja produzidos pelos altos executivos para chantagear qualquer possível desertor.

As críticas são duras e o tom é pesado, e aí reside um pouco do problema de Going Clear. O filme é bem-feito e, como documentarista, Gibney conduz as entrevistas muito bem. Porém, o diretor comete o erro mais comum desse tipo de filme: ele dá a impressão de que já começou a produção do documentário com uma opinião completamente formada. Going Clear é extremamente tendencioso e, portanto, pode facilmente ser descreditado. Em certos momentos, Gibney parece tentar remendar esse defeito e essas são as melhores partes de Going Clear. O grande trunfo do filme está em sua apresentação das práticas abusivas e inescrupulosas do alto escalão da Igreja, o que resultaram na sua ascensão vertiginosa. Quando Gibney esquece isso e resolve focar nos fundamentos básicos da Cientologia, expondo a absurdidade deles, ele perde sua vantagem. Pois, como já falei, para o cavaleiro da fé, o absurdo é o combustível perfeito para alimentar o fogo da crença.

Going Clear: Scientology and the Prison of Belief está disponível no Netflix.

Sobre o Autor

Daniel Lomba
Um entusiasta de cultura em todas as suas formas.

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