Eu Não Sou Seu Negro – Crítica

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Notas de Um Filho Nativo

Eu não sou seu negro resenha

Divulgação

Direção: Raoul Peck

Roteiro: James Baldwin

Enquanto era vivo, James Baldwin nunca cansou de se reinventar: ele já era um escritor renomado e uma voz importante dentro do debate racial americano quando decidiu arriscar tudo—sua reputação, seu sustento—e, apesar dos avisos de seu agente, de seu editor, e de seus amigos, resolveu escrever e publicar o livro O Quarto de Giovanni, em que aborda a questão gay mais de uma década antes de começarem a falar sobre ela. Baldwin nunca fugiu do debate e nunca fugiu de polêmicas: era amigo de grandes líderes do movimento de Direitos Civis para negros como Malcolm X, Martin Luther King Jr. e Medgar Evers. Era o plano de Baldwin escrever um livro comentando sobre o assassinato desses homens e analisando o papel da raça na sociedade americana; infelizmente, ele nunca conseguiu terminar o projeto.

Mas o que Baldwin não conseguiu durante a sua vida, Raoul Peck fez quase trinta anos após a sua morte: em Eu Não Sou Seu Negro, Peck pega as cartas de Baldwin a seu editor na época e consegue trazer parte da visão do escritor às telas. E quando se trata de um gênio como Baldwin, parte da sua visão já é bastante coisa.

A narrativa de Eu Não Sou Seu Negro é contada de forma original: é o texto de Baldwin, e apenas ele, que serve de guia para o filme de Peck. Tudo que é pertinente ao texto é adicionado ao filme; tudo que é desnecessário é retirado. Assim, a direção de Peck serve mais como um apoio para enfatizar as palavras de Baldwin do que qualquer outra coisa. Isso não é, de forma alguma, um demérito da direção—muito pelo contrário. É graças à mão firme de Peck que a voz de Baldwin—ou, na verdade, a voz de Samuel L. Jackson declamando as palavras de Baldwin—ganha forma; que seu discurso ominoso acerta em cheio o espectador. A decisão de Peck de justapor imagens antigas de violência policial com imagens recentes não só causa calafrios, mas também mostra a extrema urgência da discussão.

A escolha de Jackson como narrador também foi uma decisão acertada: a carreira do ator sempre consistiu em buscar papeis agressivos, raivosos, longe do estereotipo natural de negro dócil que Hollywood—e a sociedade como um todo—tentou por muito tempo manter. Um ator como Morgan Freeman, que possui uma voz mais marcante e sonora do que Jackson, teria sido, portanto, uma escolha extremamente equivocada. Mas mesmo sem a melodia de Freeman, Jackson consegue infundir as palavras de Baldwin como uma sonoridade quase poética.

E exatamente como uma poesia, o texto de Eu Não Sou Seu Negro inicialmente marca pelo sentimento e, depois, nos atinge pela força: o escritor aborda uma série de questões em seu pequeno ensaio, indo desde as raízes da segregação e passando pela representação de negros e brancos nas telas do cinema—e como essa representação é, ao mesmo tempo, um espelho da e um agente sobre a sociedade americana. Ele fala sobre como essa sociedade é ávida por ilusões; de como ela necessita desesperadamente de reafirmações de sua própria inocência; e de como, com isso, ela ajuda a perpetuar continuamente a segregação, a manter o racismo vivo e pulsante. Um ano após a polêmica causada pela falta de indicados negros ao Oscar e em um período de extrema xenofobia e racismo, essa mensagem é extremamente importante.

Eu Não Sou Seu Negro não é apenas um documentário sobre um fato histórico: ele é parte viva da própria história, que é escrita no presente. Os assassinatos de Malcolm X, Martin Luther King Jr. e Medgar Evers são apenas o pano de fundo: o importante mesmo é o que Baldwin tem a dizer. Mesmo após sua morte, o escritor ainda é uma voz necessária e continua sempre se reinventando. Isso é para poucos.

Sobre o Autor

Daniel Lomba
Um entusiasta de cultura em todas as suas formas.

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