Crítica de Série: Better Call Saul (Sem Spoilers)

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Crítica Better Call Saul

 

Se você é daqueles que acha que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, diga isso para Vince Gilligan. Better Call Saul estreou em 8 de Fevereiro nos EUA e bateu o recorde de estreia a cabo mais vista até hoje. Não é à toa: apesar de ser uma prequel de Breaking Bad, a série que está disponível no Brasil através do Netflix é independente, com seus méritos próprios – exatamente como o protagonista da história quer ser.

James McGill, que mais tarde se tornará Saul Goodman, luta para montar sua clientela como advogado e ganhar o respeito de uma grande firma de advocacia, da qual seu irmão enfermo é sócio. Na primeira temporada, vemos os passos que começaram a fazer desse advogado criminalista um advogado criminoso.

Os acontecimentos mostrados em Better Call Saul se desenrolam seis anos antes do advogado protagonista conhecer Walter White. Porém, logo nos primeiros episódios, já aparecem personagens de Breaking Bad em histórias que condizem e expandem o universo apresentado em uma das séries de maior sucesso de todos os tempos. Entretanto, quem espera ver mais do mesmo pode se decepcionar, já que os tons das duas narrativas são completamente diferentes.

A série sobre o professor de química que passa a fabricar metanfetamina é um drama com pitadas sutis de humor negro, mas a que mostra as origens do advogado dele é uma dramédia que consegue oscilar entre os extremos com uma maestria notável, inclusive dentro de uma mesma cena. Parte desse feito deve-se não só ao talento dos roteiristas, mas também à atuação sensível e eficaz de Bob Odenkirk, igualmente competente nos dois lados da complexidade dramática do personagem principal. O elenco inteiro consegue achar a comédia sem tentar ser engraçado e o drama sem tentar ser pesado, mas simplesmente acentuando as contradições e situações que vêm naturalmente dos perfis bem específicos dos personagens.

Apesar das gritantes diferenças entre as trajetórias dos protagonistas, de certo modo, a série-mãe e seu spinoff se complementam. A questão das relações familiares versus as de trabalho ainda se apresenta com bastante relevância. Na verdade, Saul se configura como um híbrido de série procedimental, através dos casos profissionais, e serializada, pela questão da evolução gradual dos personagens. Além disso, ambas as histórias conseguem escapar incrivelmente do maniqueísmo. Esse universo de muitas áreas cinzentas, onde nada é preto e branco, revela que o sonho americano de conseguir chegar ao topo através somente do trabalho e do esforço, não importando sua origem, é uma grande mentira. Saul é quase uma releitura moderna e menos drástica de Laranja Mecânica, no sentido de que fala sobre um homem tentando fazer o certo, enquanto o mundo que prega dar todas as chances para ele na verdade exige e espera que ele continue cometendo os mesmos erros. Por isso, Better Call Saul mostra que a justiça, muitas vezes, é a ética que pode existir dentro da malandragem, assim como a injustiça pode vir de quem menos se espera. E esse mundo que pode emanar tragédia e comédia com a mesma fluidez e facilidade é riquíssimo – assim como constantemente torcemos para o protagonista se tornar.

Sobre o Autor

Anna Israel
Formada em Comunicação Social – Cinema pela PUC-Rio, tive a sorte de fazer intercâmbios para a UCLA, NYU e Cornell nos EUA, de conhecer alguns dos meus grandes ídolos e de ganhar prêmios com meus trabalhos. Para viver, só preciso de cinema, TV e música. Mas boas horas de sono e chocolate também vêm a calhar.

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