Carol – Crítica

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O Preço de um Olhar

Carol1

Direção: Todd Haynes

Elenco: Cate Blanchett, Rooney Mara, Sarah Paulson, Kyle Chandler

Roteiro: Phyllis Nagy


Nota: 4,5 de 5 estrelas


A verdade é brutal. A mentira é uma arte sutil; seu poder está na quietude de suas ações. Assim como uma larva que corrói uma fruta, a mentira destrói lentamente; seu estrago não é visto de imediato e é necessário passar pela superfície incólume de sua vitima e chegar a seu centro para perceber a podridão causada. Já a verdade é como um tiro de fuzil: seu dano é violento, devastador, explosivo; suas consequências são imediatas, sua força reside sempre no presente. Tanto a verdade quanto a mentira machucam a seus modos; tanto a verdade quanto a mentira são necessárias em seus tempos. O mérito de Carol está em como o filme constrói sutilmente suas mentiras e expõe brutalmente suas verdades.

O grande orquestrador dessa façanha, sem dúvidas, é o seu diretor, Todd Haynes—o homem responsável por filmes como Velvet Goldmine e Longe do Paraíso. Com um olhar preciso sobre a grande beleza dos pequenos detalhes, Haynes conduz seu filme como um grande maestro conduz uma belíssima sinfonia. O trabalho de Haynes em Carol prima pela extrema ternura e constante atenuação; sua direção do filme é sutil, tão fina que passou despercebida pela grossa peneira dos membros da Academia, que não souberam reconhecer o diretor nem o filme.

Um pouco sobre a história do filme, para aqueles que não sabem: na década de 1950, Carol (Cate Blanchett) é uma mulher independente, mas presa em um casamento infeliz. Grande parte dessa infelicidade conjugal vem do fato de que Carol prefere se relacionar com outras mulheres. Seu casamento já está terminado e seu divórcio já está em andamento quando Carol conhece e se encanta por uma jovem chamada Therese (Rooney Mara), uma vendedora aspirante a fotógrafa que ainda não descobriu ao certo que rumos deseja tomar na vida. As duas começam a se encontrar com frequência e nasce entre elas um companheirismo firme que, aos poucos, transforma-se em uma paixão avassaladora.

É desnecessário dizer que Blanchett está fantástica no filme; a atriz já provou incontáveis vezes todo seu talento interpretativo. O destaque, então, vai todo para Mara, uma atriz que mostrou, em outros momentos, uma atuação sólida, mas que encontra em Carol um novo poço de inspiração artística. Mara nunca esteve tão bem em um filme, entrando em uma espécie de simbiose com Blanchett—a atuação de uma não pode ser separada da atuação da outra; cada uma representa uma metade do papel protagonista do filme, adindo seus talentos e chegando a um resultado que ultrapassa a soma de suas contribuições individuais. Nada é mais justo do que a indicação de ambas ao Oscar, Blanchett como atriz principal e Mara como atriz coadjuvante—uma estratégia tomada puramente para facilitar a indicação de Mara, já que as duas merecem o título de protagonistas.

Outro tiro certeiro da Academia está no reconhecimento de Phyllis Nagy. O seu roteiro—baseado no livro O Preço do Sal, que Patricia Highsmith inicialmente publicou sob um pseudônimo e, posteriormente, republicou com seu nome verdadeiro sob o título de Carol—é dotado de um lirismo incrível e uma poesia silenciosa. Seus diálogos são bem-construídos e o crescimento das personagens é bem-encaminhado, levando a um final que pode parecer óbvio para alguns, mas está longe de ser lugar-comum.

É impressionante ver a sincronicidade absurda entre texto, direção e atuação. Os momentos que mais dizem coisas são justamente aqueles em que nada é dito e se sustentam inteiramente em um olhar de Mara, ou um gesto de Blanchett, ou um take de Haynes. São nesses momentos que Carol ganha mais vida, ganha uma presença quase física, auxiliado, obviamente, pela maravilhosa trilha sonora de Carter Burwell, pelos luxosos figurinos de Sandy Powell, e pela estonteante fotografia de Edward Lachman—todos merecidamente indicados ao Oscar.

É, de fato, surpreendente pensar que com tantos pontos positivos—todos reconhecidos pela Academia—o diretor e o filme não sejam considerados ao prêmio principal. Talvez, no fundo, esse seja mais um mérito de Haynes: ele criou uma obra tão bela que apagou-se completamente aos olhos da Academia. Assim como os grandes pintores, autores e compositores, seu trabalho resiste sem ele. Haynes mostrou em Carol a beleza da mentira: pois, não se engane, a mentira é extremamente bela, diferentemente de sua irmã, a verdade, que é feia e indesejada. Porém, Haynes também mostrou que, vista por outro ângulo, a verdade apresenta uma faceta inesperada; e somente ela poderá conduzir à felicidade.

Sobre o Autor

Daniel Lomba
Um entusiasta de cultura em todas as suas formas.

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