Aquarius – Crítica

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A Era de Aquarius

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Direção: Kleber Mendonça Filho

Elenco: Sônia Braga, Maeve Jinkings, Irandhir Santos, Humberto Carrão

Roteiro: Kleber Mendonça Filho


Nota: 5 de 5 estrelas


Quando fez O Som Ao Redor, seu primeiro longa-metragem, Kleber Mendonça Filho já era um diretor especializado em curta-metragens. Essa experiência transparece no filme, que é feito como uma amálgama de diversas histórias em torno de um tema em comum; as tramas de O Som Ao Redor, à primeira vista independentes, acabam se entrelaçando e convergindo para um mesmo ponto. É um filme de sutileza e lenta construção que leva o espectador, sem que ele perceba, a uma conclusão que ele nunca esperaria.

Aquarius, o novo filme de Mendonça Filho, é, ao mesmo tempo, completamente diferente de O Som Ao Redor e essencialmente parecido. É um filme focado em apenas uma personagem, Clara (Sônia Braga), uma pesquisadora e escritora de música clássica brasileira que se recusa a vender o apartamento antigo onde ela mora há décadas para uma construtora que deseja demolí-lo e construir um novo e moderno edifício no lugar. Ao mesmo tempo, é um filme que conta, nas entrelinhas e de forma sutil, a história de uma miríade de personagens diversos; que conta a história de um país inteiro, do Brasil atual, de seu povo e de seus costumes.

No começo do filme, Clara explica seu amor por LPs em uma cena que ajuda a definir a sua personalidade e dar sentido às suas escolhas: ela é uma mulher que vive o passado, mas não de uma forma nostálgica ou saudosista; na verdade, Clara é uma mulher extremamente moderna, um misto de sábia com anos de experiência e adolescente com ideais fervorosos. Para ela, o passado é digno de homenagens, é digno de ser preservado e lembrado; cada parte do passado ajuda a contar a história do presente e a construir as fundações do futuro; antiguidades são como mensagens em garrafas que vêm não de lugares longínquos, mas de idades remotas—uma comunicação transmitida não pelo espaço, mas pelo tempo. Por isso merecem ser apreciados: porque eles nos ligam com pessoas que já viveram, já amaram e já lutaram; porque eles nos ajudam a entender a nós mesmos pelos olhos de outras pessoas, distanciadas pelo tempo, distanciadas por outras ideias, outras convenções; e porque eles ajudam a explicar o nosso mundo, a nossa atualidade, que não é nada senão o reflexo do mundo deles, da nossa história.

Em oposição a Clara, Aquarius nos apresenta Diego (Humberto Carrão), herdeiro da construtora Bonfim. Diego deseja modernizar Recife, trazer progresso à cidade eliminando o antigo e construindo algo novo sobre as ruínas. É interessante ver como Diego, um símbolo aparente do progresso e do futuro, representa, na realidade, o próprio conservadorismo. Enquanto Clara, uma mulher que supostamente apresenta-se como um empecilho para a modernidade ao homenagear o passado, mostra-se, no fundo, como uma vanguardista de primeira mão, Diego é o próprio símbolo de estagnação, de hierarquia e manutenção social. Ele é a cara de um Brasil verdadeiramente provinciano, que almeja mostrar-se como um “país do futuro”, mas procura manter-se como uma república do passado, onde os filhos sucedem os pais como os poderosos da nação e o sobrenome vale mais do que o mérito.

Em Aquarius, Mendonça Filho presta uma homenagem a esse Brasil atual, um país cheio de discrepâncias e desigualdades, mas absolutamente verdadeiro. Para representar esse Brasil, a escolha de Sônia Braga não poderia ter sido mais acertada. Ela é um ícone da nossa memória cultural, uma representação viva da brasilidade. Braga, uma atriz inexplicavelmente subvalorizada em seu próprio país, está em sua melhor forma, enchendo a tela como uma força da natureza. A atuação de Braga e a direção de Mendonça Filho dão vida e voz a Aquarius; uma voz que sussurra levemente, quase inaudível, mas que ecoa. Assim como O Som Ao Redor, o texto de Aquarius é sutil, seus diálogos fogem de obviedades e não apresentam uma mensagem explícita; Mendonça Filho é um mestre em dar uma voz natural aos seus personagens, livre de afetações, mas cheios de significados escondidos. Aquarius é o tipo de filme que precisa ser revisto para ser completamente apreciado; há tanta coisa acontecendo durante o filme e os temas são tratados de maneira tão delicada que é difícil apreender todos de início.

Embalado por uma trilha sonora fantástica, escolhida precisamente e que serve aos propósitos do filme sem se sobrepor a ele, Aquarius é um feito raro no cinema nacional: um filme que tem algo a dizer e que não aceitará ser silenciado. Seja o filho de empregada que morreu em um acidente de carro por causa de um motorista embriagado que será inocentado, seja aquele que se recusa a ver sua memória afetiva e cultural ser destruída, seja o pobre que é relegado a ficar no lado da praia após o canal de esgoto, todo brasileiro tem uma voz que precisa ser ouvida. E Aquarius se junta ao coro.

Sobre o Autor

Daniel Lomba
Um entusiasta de cultura em todas as suas formas.

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