Anomalisa – Crítica

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Procurando Lisa

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Direção: Charlie Kaufman e Duke Johnson

Elenco: David Thewlis, Jennifer Jason Leigh, Tom Noonan

Nota: 5 de 5 estrelas

Todo dia, quando acorda, Michael Stone é confrontado com o mesmo rosto e a mesma voz. Não falo apenas de sua esposa, que aguenta seus tapas e pontapés durante a noite enquanto ele se remexe no sono. Nem falo de seu filho, que o importuna unicamente sobre a possibilidade de um novo brinquedo ou presente. Falo de, literalmente, todas as pessoas, em todos os lugares: Michael Stone não consegue escapar do mesmo rosto e da mesma voz; eles o perseguem como espíritos da conformidade, destruindo qualquer possibilidade de excitação na vida cotidiana e transformando cada dia presente em uma cópia de todos os dias passados.

É nesse clima de extrema claustrofobia social e desesperança que começa o novo filme de Charlie Kaufman, Anomalisa, um dos destaques do Festival do Rio de 2015. Stone (David Thewlis), o protagonista do longa, é um bem-sucedido autor de livros motivacionais, em que ele ensina seu método infalível de para oferecer um serviço de atendimento ao cliente perfeito, garantindo o aumento da produtividade de uma empresa em até 90%. O sucesso do livro transformou Stone em uma espécie de guru, obrigando-o a viajar pelo país inteiro dando palestras. Porém, a sina de Stone é inescapável: ele está preso em um pesadelo kafkaniano sem saída. Sendo um verdadeiro misantropo, Stone não consegue mais suportar a convivência humana, para ele sempre tão igual e sem originalidade; todo mundo é incrivelmente banal, todos os assuntos são invariavelmente triviais; Stone vive infeliz porque nada mais dá a ele a sensação incrível do inesperado e impensado.

Isso é, até que um dia ele ouve uma voz nova; um som alegre e ingênuo, algo que se destaca do monótono ruído diário. Ele conhece Lisa (Jennifer Jason Leigh), uma jovem atendente de call-center com um rosto extraordinário. Ela não é bonita, nem é interessante, mas ela é diferente; e isso, para Stone, é a melhor coisa que ele poderia desejar.

Charlie Kaufman é, sem dúvida, um dos melhores roteiristas e diretores do cinema americano atualmente. Seus filmes—entre eles os incríveis Quero Ser John Malkovich, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, Adaptação e, meu favorito, Sinédoque, Nova Iorque—tratam, quase todos, da linha tênue que existe entre a realidade e a ficção. Anomalisa não foge dessa temática: Stone passa uma parte do filme questionando o próprio mundo que ele vive e, em especial, sua própria identidade. Ele olha para o seu rosto no espelho e pergunta-se o que se esconde atrás dele; o que há de oculto além da aparência; aquilo que as pessoas comumente chamam de personalidade. A angústia de Stone provém do fato de que ele não consegue propriamente se definir e, muito menos, entender e definir os outros. Desprovido de qualquer traço marcante a seu redor, ele se vê constantemente nadando contra uma correnteza de mesmice, desesperado, tentando se agarrar a qualquer coisa. Lisa, então, aparece como uma rocha salvadora. É interessante perceber como Kaufman faz Stone, em um mundo onde todos foram condicionado a parecerem iguais e a pensarem a mesma coisa, aparecer como o último homem que carrega a bandeira da diversidade.

Parece arrogante—e é. Além disso, é um pouco ofensivo imaginar que Stone, que é homem, branco e heterossexual, se destaca como o último bastião da diversidade. Mas Kaufman não pode usar nenhuma outra voz além da sua e ele sabe disso, e é justamente refletindo sobre os problemas desse tipo de personagem—o homem misantrópico—que o diretor sempre se destacou. E mais: Kaufman não defende o seu protagonista em nenhum momento, inclusive chamando repetidamente à atenção do espectador o quanto Stone é patético. Essa espécie de mea culpa é famosa nos filmes de Kaufman, que nunca se preocupou em expor si mesmo ao ridículo, ou em apontar os defeitos de seus protagonistas.

Anomalisa é extremamente kaufmaniano e, portanto, os fãs do diretor provavelmente gostarão do filme. O uso do stop-motion, contribuição do codiretor Duke Johnson—que dirigiu o episódio de Natal da série Community—, é um outro destaque e encaixa-se perfeitamente no universo de Kaufman. E esse é um universo de onde é impossível fugir, porque, no final, o mal de tudo não está na sociedade; ele está plantado bem dentro de você. Kafka ficaria orgulhoso.

Sobre o Autor

Daniel Lomba
Um entusiasta de cultura em todas as suas formas.

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