Aliados – Crítica

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O Espião Que Me Amava

Crítica de Aliados

Direção: Robert Zemeckis

Elenco: Brad Pitt, Marion Cotillard, Jared Harris, Lizzie Caplan

Roteiro: Steven Knight

Em que momento Brad Pitt desistiu de vez de sua carreira de ator? Após uma breve checada na filmografia do astro, eu acho que consigo precisar esse momento como em algum ponto entre A Árvore da Vida e O Homem Que Mudou o Jogo. Talvez a experiência de trabalhar com Terrence Mallick tenha permanentemente afetado sua capacidade de julgamento; talvez a perda do seu terceiro Oscar tenha quebrado de vez o seu espírito—quem sabe? O fato é que após esses dois filmes, Pitt apenas acumulou papeis pequenos e protocolares em filmes como A Grande Aposta e Doze Anos de Escravidão, e papeis grandes e embaraçosos em filmes como Guerra Mundial Z e Corações de Ferro. Com Aliados, o novo filme do ator, a história não é diferente.

No filme de Robert Zemeckis, Pitt interpreta o espião canadense Max Vatan em plena Segunda Guerra Mundial. Em uma de suas missões, Max é enviado a Casablanca para matar o embaixador alemão com a ajuda da misteriosa espiã Marianne Beauséjour (Marion Cotillard). Os dois, inevitavelmente, acabam se apaixonando e, terminada a missão, Max decide levar Marianne até Londres e se casar com ela. Porém, quando sua esposa é acusada de ser uma agente dupla trabalhando para o governo alemão, Max precisará se decidir entre a obediência a seus superiores e a fidelidade à mulher que ama.

O maior problema de Aliados é que nada no filme faz sentido, começando pelo casal protagonista. O início do romance entre os dois é feito aos solavancos: Cotillard e Pitt não possuem quase nenhuma química entre si, e isso dificulta muito a missão de Zemeckis de tentar fazer o amor entre os dois parecer crível em pouco tempo. Junte a isso o fato de que Pitt, como já observei, parece ter desistido completamente da carreira: no começo do filme, o ator confunde sutileza e sensibilidade com estoicismo unidimensional—sua performance é completamente desprovida de nuance, e o que deveria ser uma sisudez militar fica com cara de um niilismo cansado. Cotillard dá o seu máximo para tentar fazer o filme ficar bom, mas a pobre atriz está em uma batalha já perdida, lutando contra a indiferença do seu par romântico e os caprichos do seu diretor.

Zemeckis nunca foi conhecido por sua originalidade e por sua sutileza. Tal como Spielberg, após um começo de carreira com alto influxo criativo, ele se acomodou e passou a se preocupar mais em contar bem uma história batida. Mas em Aliados o diretor perde completamente a mão—o filme é tão pouco sutil e tão pouco original que faz Forrest Gump parecer uma obra-prima do cinema intimista. Zemeckis recheia o filme com cenas que beiram ao cômico pela sua grandiosidade: começando com uma cena de sexo em plena tempestade de areia, passando por uma roda de enfermeiras aplaudindo o nascimento de um bebê durante um bombardeio, e indo até a invasão de um delegacia francesa com um carcereiro medroso e muito atrapalhado. A própria cena em que Max é informado das suspeitas sobre sua esposa—um ponto de virada importante na trama do filme—é montada de forma tão estapafúrdia que parece até tirada de algum dos filmes dos irmãos Coen, só que sem as piadas.

E se a direção já não fosse ruim o suficiente, o roteiro é ainda pior: além de ser recheado com frases que parecem tiradas diretamente de um curso amador de escrita criativa, o filme não se preocupa em desenvolver nada além do casal protagonista—e mesmo nisso ele não se dá tão bem. Steven Knight, o roteirista, não parece nem ter pensado direito no conceito dos outros personagens, apenas jogando-os na trama sem qualquer tipo de trabalho ou motivação. O chefe de Max (Jared Harris) é tão esquecível que eu não me lembro nem do seu nome; e a irmã dele (Lizzie Caplan), que é lésbica, é tão descartável que o roteirista genuinamente não parece ter pensado em nada sobre ela além do fato dela ser lésbica.

O pouco que se salva em Aliados é o figurino— que presta homenagem a filmes clássicos como Casablanca. Mas só isso não basta para salvar o filme; nem de longe. Você pode tentar arrumar um punhado de lixo da melhor maneira possível: colocar em um saco bonito e amarrar com uma fita colorida; mas por dentro ainda vai ser lixo, e ainda vai feder. Que Pitt tenha apenas atuado, mas não produzido esse filme é um indicativo e tanto da sua qualidade. Que ele se mantenha apenas como produtor no futuro; acho que assim ele ganha mais.

Sobre o Autor

Daniel Lomba
Um entusiasta de cultura em todas as suas formas.

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