Álbum Review: ‘Drones’ – Muse

 

DRONES

 

Histórias de um mundo em colapso, onde grandes forças – políticas, religiosas, corporativas – controlam a população por meio de lavagens cerebrais e manipulações imperceptíveis, são comuns nas músicas do Muse, que lançou esta semana o sétimo disco da carreira, Drones. Com a proposta de um álbum conceitual, com uma história contada com início, meio e fim, o trio mostrou uma certa evolução sonora, mas que por vezes pode parecer repetitiva. De qualquer forma, este é um trabalho mais coeso do que o confuso – mas não ruim – The 2nd Law(2012).

Para início de conversa, vale lembrar que Muse é uma banda que tem boas letras, mas esse não é o forte deles. A falta é compensada nos arranjos e na qualidade técnica impecável, que os coloca em um patamar muito acima de bandas contemporâneas.

Drones começa com a pop e cadenciada “Dead Inside”, que parece ainda ter um vínculo com o disco anterior, que era repleto de elementos eletrônicos, lembrando um pouco a apaixonante “Madness” com toques de New Order. Ela é a responsável por introduzir a saga distópica do álbum, onde o personagem começa a ser dominado por essa força maior que controla o mundo.

A ideia de controle é passada pela capa do álbum, onde uma mão controla uma tropa enquanto também é controlada por algo maior ainda. O líder desses “soldados” é quem comanda “Psycho”, na qual Matthew Bellamy canta “your ass belongs to me now” [seu traseiro me pertence, em tradução livre]. A faixa surgiu de um riff executado pela banda ao vivo há um bom tempo, e ficou imortalizado no DVD Haarp (2008), ao fim de “Stockholm Syndrome”. Essa é uma das poucas faixas que segue a proposta que a banda havia sugerido ao entrar no estúdio, guitarra, baixo e bateria dando conta do recado. Mas pensar em um álbum do Muse com poucos elementos é quase impossível. Eles são uma banda grandiosa, megalomaníaca, e claro que isso não poderia ficar fora das músicas.

“Mercy” é uma das mais pop, e até por isso deve ter sido escolhida como o segundo single. Ela é uma meia irmã de “Starlight” e poderia facilmente estar em Black Holes and Revelations (2006). Em seguida vem “Reapers”, onde os três se destacam em seus respectivos instrumentos. Cantando sobre um campo de batalha onde drones são assassinos, Bellamy faz um ótimo solo na metade da música acompanhado pela linha de baixo criada por Christopher Wolstenholme. Dominic Howard, apesar de aparecer meio ofuscado em outras faixas, também dá show nessa, com viradas muito boas.

O álbum segue o clima pesado na obscura “The Handler” cuja batida sensual e o baixo mais sujo dão um certo tom de sofisticação. No fim ela cresce e ganha tons mais dramáticos, quando o personagem começa a clamar por liberdade. Após o discurso no qual o presidente Kennedy fala sobre sistema, controle e opressão, o eu-lírico aponta o dedo na cara em “Defector” e canta “you can’t brainwash me, you’ve got a problem”. A canção tem ares grandiosos e uma harmonia mais alegre. Os vocais chegam a lembrar o Queen, referência que aparece bastante em T2L.

Para os fãs mais chatos, “Revolt” pode ser a pior música do Muse. Mas ela funciona no contexto do álbum. Pela melodia quase infantil, remetendo aos musicais teens como “High School Musical” (tá, forcei um pouco), pode-se dizer que é um passo ousado da banda, mas que tem seu valor. Depois da explosão de felicidade, a parte final do disco mostra um lado mais melancólico. “Aftermath” apresenta um cenário de destruição, mas o personagem ainda diz ter forças para se manter de pé. Apesar de ser um pouco brega e lembrar um hino patriótico, o clássico “We Are The World”, ou até “Tender” do Blur, a faixa é uma das mais bonitas do disco.

“The Globalist” era anunciada como a continuação de “Citizen Erased”, de Origin of Symmetry (2001). Essa é realmente uma das melhores músicas da banda com quatro momentos diferentes. A introdução é como uma trilha de filme, em seguida a banda entra em uma melodia suave e se transforma em um grande riff de guitarra e viradas excepcionais de bateria. A última parte remete à canções antigas da banda, com piano, coral e todos os elementos de música clássica possíveis. Dez minutos de pura emoção.

A faixa-título é uma surpresa no disco, e funciona mais como encerramento de “Globalist” do que como uma música isolada. Talvez pudesse ter sido mixada junto com a anterior. Ainda assim, se torna surpreendente por ser praticamente um solo vocal de Bellamy em canto gregoriano. Apesar da letra pouco interessante, é um ótimo fim para a intenção do trabalho. É uma prova de que, mesmo que queira, o Muse não consegue se desvincular da grandiosidade de sua obra. O que nos resta, é esperar que eles mantenham o nível técnico de seus discos e apresentações. AMÉM!

Ouça o disco:

 

Sobre o Autor

PH Rosa
Jornalista, autor de contos que nunca viram a luz do dia, viciado em música e comprador compulsivo de livros, discos e tênis. Se diz bom amigo, mas prefere ir ao cinema sozinho. Ama descobrir novos sons e escrever sobre canções que causam arrepio.

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